O mistério de Agatha Christie
Postado em October 16, 2007
Categoria Literatura |
Como são curiosos, os caminhos que o pensamento vai tomando! Já tinha pronta, na cabeça, a estrutura argumentativa de um texto, mais um, sobre política, a partir de algumas declarações levianas, porém interessantes, de Nicolas Sarkozy, o chefe de Estado deste início de “Terceiro Império” francês (ao qual só falta um império). Porém, numa dessas ocasiões em que me ponho a flanar por aí, fui assaltado por um ponto de interrogação que nada tem a ver com nada, não sei como foi parar no meio do meu raciocínio e, afinal, alterou radicalmente meu plano para este blog. A tal ponto que deixo de lado a política para tratar de literatura. Mais uma vez, mais uma vez. Sarkozy vai ter de ir para a geladeira. Désolé.
O pensamento que me atingiu de supetão foi algo de bem prosaico: simplesmente, não sei dizer se Agatha Christie escreve bem. Não é o caso de questionar se as histórias, os enredos, os personagens, são bons ou não. Falo da prosa. É boa? Fluida, poética, bem trabalhada? Boa pergunta. Não me lembro. Ou melhor, é injusto dizer que esqueci. Eu nunca soube. Lia Agatha Christie num tempo em que a maneira de escrever de um autor não me interessava em absoluto. Ou antes, muito pouco, e quase jamais por um ângulo racional. E li bastante. Havia uma prateleira inteira de Agatha Christie na casa em que cresci. Posso dizer, sem falsa modéstia, que a limpei. Alguns em português, outros em inglês, li todos os volumes disponíveis.
Igualmente, limpei as prateleiras de Conan Doyle e Maurice Leblanc. Mais do que Washington ou Assis, fui um garoto que queria ser Sherlock Holmes ou Arsène Lupin quando crescesse. Falhei em ambos, naturalmente. Por outro lado, esses cânones vetustos da literatura policial participaram profundamente em minha formação como leitor. É até estranho que, mais tarde, tenha encerrado quase inteiramente minhas incursões pelo gênero. Li Poe, mas só uma arte do que esse aí escreveu pode ser considerada policial. E li Dashiell Hammet; muito pouco, é verdade, mas o suficiente para que eu possa me arriscar a dizer que foi ele o autor a me introduzir às preocupações de ordem estilística.
Completando esse processo, ficaram na penumbra as memórias de minha leitura juvenil. Abandonei criminosos e detetives. Por quê? Não foi intencional. Não sou daqueles que desprezam o romance policial como um todo, esnobando-o sob a alcunha de gênero menor. Pelo contrário, a atmosfera do noir me encanta enormemente, e não consigo ver por que um gênero teria maior ou menor habilidade para escarafunchar a dimensão metafísica e existencial do homem, como pode fazer com tanto sucesso a arte literária dos maiores autores.
Talvez seja, justamente, por culpa deles. Os autores. É possível que eles reservem suas maiores energias estéticas para livros outros, sobre adultérios, doenças, guerras, misérias muito mais trágicas, universais, e só se metam a falar de mistérios e crimes, digamos, menores, quando querem relaxar a cabeça. Os vícios que escorrem pelas calhas da urbanidade umbrosa dificilmente têm o mesmo charme dos traumas cintilantes e eternos. Paciência. Ou, ainda, eles podem ser tão habilidosos que, ao ler um livro policial muito bem escrito, de grande valor estético e metafísico, eu nem me dê conta do gênero ao qual pertence. São ardilosos, esses escritores.
Mas isso tudo são meras conjecturas, então retorno a Agatha Christie, a distinta senhora cheia de idéias inconfessáveis, decana no gênero dos detetives, que suscitou todas essas reflexões. Como disse, faz anos que não leio uma linha do que ela escreveu, e não consigo mais afirmar se, estilisticamente, seu texto é ótimo, bom ou medíocre. Tendo a crer que não há de ser inteiramente mau; caso contrário, ela jamais teria se tornado Dama do Império Britânico. De Conan Doyle, ainda me lembro que uma de suas descrições, interminável aos meus olhos de criança, deu-me ganas de escrever páginas e páginas sobre o mero ato de abrir uma porta. Para imitá-lo e, vá lá, satirizá-lo. Mas de Agatha Christie, não lembro nem como eram suas descrições.
Repito que não estou aqui querendo emitir um julgamento sobre sua obra. Para mim, há quatro maneiras bastante simples de constatar a grandeza de um escritor, embora elas sejam dificilmente delimitáveis e se entrecruzem com freqüência. Um crítico rigoroso poderia rir de meus critérios, mas, ora, não somos críticos, certo?, somos leitores. E esses critérios bastam para que um leitor atento estabeleça um panorama de uma obra ou um autor. Vamos a eles.
O primeiro critério, banal e intuitivo, reside nas histórias que são contadas. São interessantes? Instigantes? Não preciso dizer que esse é um elemento fundamental para muitos gêneros, e em particular para o policial. Vamos convir que não adianta escrever lindamente sobe um crime que pouco interessa ao leitor. Se não houver um suspense qualquer, a ser muito bem tecido pelo autor, ter um bom desempenho nos demais critérios dificilmente ajudará. Mas há livros que dispensam inteiramente o enredo, ou nos quais ele é secundário. Excelentes exemplos estão em João Gilberto Noll, Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido) e Ferdinand Céline (Viagem ao Fim da Noite). Não interessa como começa a história, nem onde termina, mas o que está no meio. Às vezes, nem história há…
O segundo consiste na construção dos personagens e, por extensão, na invenção de um universo em que circulem. Inventar e, com isso, possuir personagens apaixonantes, carismáticos, emblemáticos, por que não dizer, arquetípicos, é meio caminho para tornar uma obra de ficção inesquecível. Mas, cumpre não esquecer, acima dos personagens, está seu mundo, sua realidade, seu universo, em que o romancista tentará, por todos os meios, mergulhar o leitor, até que ele perca toda vontade de voltar à superfície, e seja tomado por um vazio quase existencial quando o livro chegar ao fim.
O terceiro é, finalmente, o estilo, a prosa, a destreza do artista das letras que propicia, à leitura de um único parágrafo, ou mesmo uma única frase, um prazer inexplicável. Essa espécie de fruição, tipicamente poética, arrisca mesmo de nos conduzir a perder a atenção no que está escrito, em função de saborear apenas o como está escrito. E isso não é ruim. Acontece não raro com leitores de Guimarães Rosa, de Proust, de Joyce. Chega-se a perder o fio da meada. Não me lembro do desempenho de Agatha Christie neste quesito, nem espero dela uma prosa como a de um Faulkner. Longe de mim.
A última característica que me interessa nos livros é, desculpem, mais árida, abstrata, distante das categorias mais formais do texto. Peço licença para essa liberdade; acredito que é a influência de minha queda pelas filosofices. Para mim, faz uma diferença enorme o potencial de uma obra como proposta ou tentativa de abordagem da realidade; seja a humanidade, a sociedade, o mundo contemporâneo, a presença constante da morte, o que for. Nesse campo, Balzac é um deus, Machado de Assis é outro, Borges é uma espécie de Júpiter e Henry Miller é Exu. Grosso modo, claro.
Pensando bem, amarrando esses quatro conceitos, é possível entender o que leva um indivíduo em idade produtiva, como eu, a se enfiar na leitura, em vez de investir em derivativos, algo muito mais lucrativo, simples e de acordo com as engrenagens da História. Não leio um livro apenas pelo enredo. Para isso, por exemplo, há jornais, que têm a vantagem de falar de fatos verídicos. Nem pelos personagens, evidentemente. Alguns amigos são os melhores que possam existir, fora os meros conhecidos e aqueles de quem ouvimos falar. O estilo tampouco basta; imagens poéticas são encontráveis em profusão, muito mais trabalhadas e evidenciadas, em poemas, naturalmente. E é evidente que não leio livros de ficção em busca exclusivamente da maneira como espelha e digere o mundo. Há uma infinidade de tratados que o fazem com muito mais rigor.
Um livro, ora, é um produto artístico, e a arte não saberia se manter confinada a um único sentido, sob pena de tornar-se medíocre, dispensável e facilmente esquecível. Para entender o fascínio da arte em geral, e da literatura em particular, sobre a minha humilde sensibilidade de receptor, é preciso somar esses elementos, imiscuí-los, dissolvê-los a ponto de se confundirem. Quando eles são separáveis apenas por um exercício aprofundado e voluntarioso de reflexão, a obra atinge o máximo de seu potencial.
Fundamentos teóricos à parte, voltemos, mais uma vez, à autora que está na berlinda. Agatha Christie criou alguns dos mais memoráveis personagens do gênero policial. O inspetor Poirot está gravado no inconsciente de gerações e gerações, junto com figuras como Sherlock Holmes, Jeckyll e Hyde, Madame Bovary. Quantas moças oprimidas, na última centena de anos, a ambição de tornar-se uma Miss Jane Marple? Não é questão de contabilizar a massa de pessoas que conhecem esses nomes. Todos eles perdem em popularidade para o Pluto e o Batman. Mas carregam uma gama de significados que tornam sua existência uma parte fundamental da cultura posterior, com uma profundidade muito maior do que a turma do Mickey ou do Super-homem. Ponto para ela.
As histórias de Lady Mallowan também fazem parte da antologia do século XX. O Caso dos Dez Negrinhos, O Assassinato de Roger Ackroyd, O Assassinato no Expresso do Oriente, são livros que mesmo o mais exigente dos eruditos já leu, ou pelo menos passou os olhos. Contribuíram para formatar a fantasia coletiva de toda uma época, com ecos que se percebem até nossos dias. O suspense dentro de um trem ou uma ilha dificilmente deixam de cativar aquele que se aventura a passar alguns dias com o volume aberto diante dos olhos. Ponto, mais uma vez.
Nos outros dois critérios, as discussões são possíveis. Ela escreve bem? Não sei, mas certamente não escreve mal. Será que, a partir de todos esses thrillers de mistério, podemos traçar uma nova abordagem ou um novo conhecimento do homem e do mundo, como acontece quando lemos Dostoiévski ou Robert Musil? Dificilmente. Não nesse nível. Mas é inegável que um certo modo de vida britânico e, freqüentemente, europeu, está presente nos romances e peças.
Também sabemos que o gênero policial floresceu na primeira metade do século passado, época em que ela mais escreveu, com Maurice Leblanc, Dashiell Hammett, Raymond Chandler e uma série de autores menores, hoje esquecidos. Eram tempos de mafiosos reais e imaginários, milícias extremistas, espiões e agentes duplos de tudo que é nação agindo em tudo que é cidade. Não é à toa que mistérios e crimes fizessem sucesso na literatura. E Mme. Clarissa se destacou no meio de tantos. E pluribus unum, não há de ser à toa.
Depois de todas essas divagações, deu vontade de reler algum livro dela. Mas não vai acontecer. É uma página virada em minha vida, tenho já uma pilha grande demais de livros para ler, meus interesses são outros. Mas resta o fato de que, afinal, agora estou certo de que minha antiga leitura policial não foi perda de tempo, e ainda relembrei alguns livros que me divertiram muito, alguns anos atrás. Quem disse que a fruição não pode ser retrospectiva?
Maravilhoso esse texto. Fazia tempo que eu não visitava seu blog. Por aqui, a qualidade dos textos só aumenta. Amanhã volto para ler mais. Grande abraço!
Pertinente esse texto, levando-se em conta o interesse que o gênero policial despertou nos escritores “sérios” brasileiros nas últimas décadas. Começou com os romances de Rubem Fonseca na décadas de 70 e 80, depois vieram Garcia-Roza,Isaías Pessotti, o Tony Bellotto (que como não li os livros não sei se trata de um escritor “sério”). Tem também a literatura comercial de um Jô Soares, também pautada no gênero. São autores (tirando o Jô Soares, cujo interesse é a paródia e o pastiche) que no geral usam as convenções do romance policial para tratar de filosofia, psicanálise, os limites da historiografia…
É bastante pertinente levantar essa questão, já que nas últimas décadas houve um interesse crescente entre os nossos escritores com relação à retomada do romance policial. Tudo começou, imagino eu, com os romances do Rubem Fonseca, depois vieram Garcia-Roza, Isaías Pessotti, até o Tony Bellotto dos Titãs. São escritores que no geral usam o gênero para abordar questões complexas, como psicanálise, filosofia, os limites da historiografia, etc. Costumam escrever livros que em maior ou menor grau transgridem as convenções do gênero. Na literatura de “entretenimento”, temos o Jô Soares, apadrinhado pelo Rubem Fonseca, que não aborda questões profundas, limitando-se apenas a fazer paródias e pastiches.
Não sei ao que atribuir isso, que aqui nos trópicos o gênero policial tenha se tornado “sério”, objeto de interesse para muitos escritores que nutrem ambições literárias mais profundas do que simplesmente vender livros às pencas.
É bastante pertinente levantar essa questão, já que nas últimas décadas houve um interesse crescente entre os escritores brasileiros com relação à retomada do romance policial. Tudo começou, imagino eu, com os romances do Rubem Fonseca, depois vieram Garcia-Roza, Isaías Pessotti, até o Tony Bellotto dos Titãs. São escritores que no geral usam o gênero para abordar questões complexas, como psicanálise, filosofia, os limites da historiografia, etc. Costumam escrever livros que em maior ou menor grau transgridem as convenções do gênero. Na literatura de “entretenimento”, temos o Jô Soares, apadrinhado pelo Rubem Fonseca, que não aborda questões profundas, limitando-se apenas a fazer paródias e pastiches.
Não sei ao que atribuir isso, que aqui nos trópicos o gênero policial tenha se tornado “sério”, objeto de interesse para muitos escritores que nutrem ambições literárias mais profundas do que simplesmente vender livros às pencas.
Bela divagação. Parabéns pelo blog. É a primeira vez que o leio. Cheguei até o “Sententia” casualmente passeando pelo Google. O pessoal do Breviário é muito bom. Ah, acredite ou não, apesar de leitor assíduo, nunca li Agatha Christie. Não por preconceito, simplesmente não li. Um abraço.
Outro dia me perguntaram quais eram meus grandes “mestres”, as pessoas que mais me influenciaram… Poirot é um deles hahaha
Também fui leitora deAgatha Christie e demais policiais. Apesar de amante da arte literária e de toda expressão artística. Hoje não devoro mais policiais. Se vejo Poirot na tv, aro para assistir ao episódio filmado. As séries policiais do Canal Universal também são meu vício ao chegar em casa. Se os mercenários, arrogantes e malandros se esbaldam na vida real e saem ilesos, não é o que ocorre na ficção policial, são desmascarados pela ousadia dos bons detetives. Por brincadeira de amigos, já fui apelidada de Sherlock Candida. Os que gostamos de literatura nem podemos dispensar os isdispensáveis policiais. Você tem muitos cúmplices.
A propósito de Agatha Christie, convido você e a todos para conhecerem dois blogs recém-lançados…
O Mundo de Agatha Christie
http://acasatorta.wordpress.com
Cinema é Magia
http://cinemagia.wordpress.com
Um abraço.