Como nasce um artista

Postado em October 2, 2007
Categoria Arte, Literatura |

Não tem funcionado, nos últimos tempos; mas, historicamente, a França sempre foi o país mais eficiente em termos de auto-promoção. Neste início de século, talvez eles ainda creiam que são o mais culto dos países, onde se faz a melhor arte, a melhor cozinha, em suma, o melhor qualquer coisa que não seja “essa cultura de mercado rasteira” que vem do outro lado do Atlântico. Eventualmente, contudo, ainda é possível sentir os ecos dessa fama toda. Como Pablo Picasso, Julio Cortázar e Maria Callas, muitos jovens artistas e aspirantes vêm tentar a sorte por aqui, seja para obter algum aprendizado, seja porque crêem na fortuna e esperam topar com a sorte e a fama numa dessas esquinas enfeitadas com cafés. Além dos universitários, como eu, existem por aqui os aventureiros, intrépidos poetas, pintores e escultores com nomes por fazer.

A sorte, claro, é de quem aprecia a arte, a literatura, as boas discussões filosóficas, culturais, políticas. Dou um exemplo de um colega meu, que, apesar da dedicação inquestionável aos estudos, tem mesmo é o sonho de fazer-se autor. Contei-lhe de meus blogs, ele os visitou, não se interessou em seguir o exemplo porque sofre de uma incurável timidez virtual, mas se afeiçoou de mim. A tal ponto que passou a me trazer as linhas que traça, para que eu as comente, como se fosse algum grande crítico ou entendedor, e dê sugestões e idéias.

É um prazer enorme ouvi-lo contar das madrugadas que passa em sua escrivaninha, sentado na mais desconfortável das posições, escrevendo, sempre à mão, as histórias que vai construindo à medida em que a caneta passeia pelo papel. Tenho uma certa inveja dessa forma de ser, confesso. É meu lado romântico, às vezes mais forte do que eu gostaria de admitir. Sua empreitada mais recente, ele me contou, é a composição de um romance, desses que têm centenas de páginas e dezenas de personagens, e podem alçar um rapazola à glória, como creria um personagem de Dostoiévski.

Mencionei-o porque o reencontrei há alguns dias, após tantas semanas de férias em que estive dedicado a atividades que nada têm com os estudos. Ele, naturalmente, também: pôde entregar-se de corpo e alma a esse tal livro. Cheguei a pensar que o veria altivo, luminoso, ansioso por me contar sua experiência como romancista. Qual o quê. Vinha cabisbaixo, assoberbado pelas olheiras, os ombros caídos como se carregasse correntes no pulso.

Abracei-o, mas seu corpo estava amolecido. Não pude mais disfarçar. Perguntei-lhe qual era o problema. “Nada”, ele tentou me enganar. “É só que”. A frase não terminou nem com as devidas reticências. Era, isso mesmo, só que. Mas acabou falando: “Escrever é muito difícil. Não sei se consigo”. Tentei reanimá-lo argumentando que sempre leio seus escritos, e os acho ótimos. Que nada me daria mais prazer do que ler outros. Que ficaria muito triste se soubesse que ele havia abandonado sua arte.

Não havia. Muito pelo contrário. O que lhe passou foi um processo digno de filme épico. Um grande ataque de auto-crítica, capaz de arrancá-lo aos trilhos, seguido de um processo de combate e aprendizado pelo qual todo artista deveria passar antes de pendurar esse título no peito. Segundo me explicou, era de praxe, até meados de junho último, que ele escrevesse laudas e laudas todo dia. Dez, quinze páginas. A cada madrugada, um conto, um artigo, um ensaio, parte de uma peça de teatro. Tinha material, ou achava que tinha, para volumes inteiros.

A bem da verdade, já procurara editoras no Brasil. Todas o haviam recusado, isto é, todas que ele considera sérias e aceitáveis. Não queria desperdiçar seu material com uma casa que publica qualquer um, sem tomar atitudes para promover o autor e torná-lo um best-seller. Esse material todo estava na gaveta.

Durante as férias, os escritos secretos foram resgatados da tumba. Meu pobre colega releu tudo, não gostou, achou mal escrito, pueril, sem estilo. Decidiu-se a recomeçar do zero. Tomando a caneta, teve necessidade de trabalhar cada frase inúmeras vezes. Escolher as imagens poéticas que valia a pena encaixar, e quais deveria cortar sem dó. Passou a preocupar-se com o ritmo, a fluidez dos parágrafos, a riqueza dos diálogos.

Era o fim de uma era. Laudas e laudas todo dia, nunca mais. A produção encolheu. De repente, ele se via não conseguindo escrever mais do que uma página, às vezes uns poucos parágrafos. Isso não significa que se perdesse em devaneios e fosse incapaz de se dedicar a seu trabalho de fato. Pelo contrário, seu afinco era até mais agudo que jamais. Os textos, ele disse, deixaram de escorrer, límpidos, cristalinos. As páginas tornaram-se trincheiras de garranchos e rabiscos. Parágrafos barrados, grandes cruzes sobre as páginas, remendos na vertical, essa passou a ser sua nova realidade.

Quando me contou que quase chorava ao considerar, até que enfim, um trecho satisfatório, tive vontade de também chorar. Como é difícil, confessou, aceitar que uma descrição, uma narrativa, um diálogo, o que seja, é chegado a seu ponto de melhor construção, além do qual qualquer modificação será para o pior… Como é difícil, prosseguiu, encontrar esse ponto! Como é doloroso! Que ofício ingrato!

Tornou-se nítido, então, que o desabafo lhe fizera bem. Estava mais leve, embora o silêncio tenha revelado uma respiração ofegante. Achei, em algum momento, que ele sorria. Estaria ele a ponto de desistir da arte, seu principal esteio na vida, para se entregar à existência mesquinha de quem só procura sobreviver? Antes que me anunciasse uma intenção que, a meu ver, corresponderia ao suicídio anímico, pedi para ler algo que tivesse produzido depois de sua crise. Relutou, relutou, diria até que refugou, mas acabou cedendo e prometeu levar-me umas linhas no dia seguinte.

Pois bem. Em menos de uma página, narrava-se a cena de uma bela mulher que discorre sobre seus anseios diante de um homem sem interesse. Eu queria ler tão lenta e cuidadosamente quanto ele escrevera, mas o texto me traiu. As sentenças desaguavam umas nas outras sem que eu pudesse controlar o fluxo. O humor era implícito, a poesia mais ainda, a composição cuidadosa do autor não se denunciava em momento algum.

Ao final, eu estava pasmo. Sempre considerei que a meu amigo, embora dedicado, inteligente e interessantíssimo, faltasse o principal. Em uma palavra, talento. Pois eu estava errado. Não sei se talento se adquire com o tempo, mas, a julgar pela enorme mudança que se produziu em tão poucos meses, parece que sim. Aquele homem feito, barba no rosto, saíra de sua puberdade artística. Mas, supremo paradoxo, não passava a impressão de estar satisfeito.

Expus-lhe meus sentimentos. Fui direto, claro e honesto. “É, disparado, a melhor coisa que você já me deu para ler”. Mas ele não quis acreditar. Achou que eu só queria ser simpático. Para ele, aquele texto não tinha a mesma honestidade dos anteriores. Faltava-lhe a espontaneidade. Para ele, talvez. Para o leitor, era uma peça única e completa. Prescindia de qualquer mudança. Era assim que eu pensava. Mas ele ainda estava preso à idéia de que o escritor deve jogar as coisas sobre o papel, “simples assim”.

Partiu sem se convencer. Espero que tenha refletido sobre o assunto. Quanta gente não há por aí, que apenas joga as coisas no papel, posa com a bituca de cigarro e reclama o cetro do gênio? Nada de especial. Não é à toa que o mercado é tão fechado. Não há comporta que segure tanta mente brilhante. Querem crer na escrita automática, mas onde ela foi parar? Morreu com os surrealistas. Todos acham que são Ginsberg, Bukowski ou Kerouac, como se sabe. Mas quantos querem perder o fígado ou ser perseguidos pelo buraco da conta bancária, em nome de uma escrita irresistível e inigualável?

Tive a rara oportunidade de ver, à minha frente, um escrevinhador se transformando em escritor. É como a metamorfose de uma crisálida, pode-se dizer. É o tipo de processo pelo qual passaram os grandes, de Capote a Céline, de Proust a Faulkner, de Machado a Mann, de Guimarães a Joyce. Por que meu triste colega seria uma exceção? Por que ele nasceria pronto? Resposta: não seria. Não nasceria.

Expliquei-lhe minha posição ainda hoje. Ele segue sem se convencer. Não se importa o que eu lhe diga. Que tento ler gente que está se lançando, mas jamais me satisfaço. Que vejo muitos autores promovendo seus livros, mas raramente ouço de algum que o burile até a exaustão. Não é à toa que não conseguem ser levados a sério, a não ser por alguns amigos. Não é à toa que não conseguem tiragem, críticas, repercussão. Querem subir no pódio de uma competição fácil, como se todos os seus ancestrais que morreram pela arte, de tuberculose, sífilis ou até fome, fossem todos uns levianos.

É por isso que tenho esperanças de que esse meu colega possa vir a ser uma exceção. Se, naturalmente, estiver disposto a seguir a trilha até o final. Caso contrário, melhor desistir enquanto é tempo. Amanhã, quando o reencontrar, vou propor uma aposta: que escreva um livro inteiro, pouco importa o quanto vai demorar, com essa sua nova prática. Que sofra, que queira desistir, que caia doente, prefiro nem ficar sabendo. Mas, ao terminar, que ele submeta o resultado, mais uma vez, às suas editoras favoritas. E veremos o que acontecerá.

Comentários

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9 Comentários »

2007-10-06 16:22:02

Fiquei encantada com a qualidades dos textos: parabéns!

Quanto ao seu amigo, (e que ninguém me escute, pois sinto vergonha no que vou dizer, mas que vença a verdade) talvez ele tenha tomado a decisão mais sensata da vida dele. Que nas próximas férias, ele curta a vida jogando xadrez com os amigos ou vendo um belo por de sol: a realidade pode não ser tão bela quanto a ficção, mas é, sem dúvida nenhuma, mais importante.

Cris

2007-10-16 10:14:58

Será? Acho que ambas são igualmente desimportantes ou igualmente importantes. Não existe humanidade sem ficção.

 
 
2007-10-08 01:00:16

Excelente texto, assim como os outros tantos que já li por aqui.

2007-10-16 10:15:22

Agradeço infinitamente. Continue voltando, por favor!

 
 
2007-10-15 17:27:37

Mas seria mesmo “talento” que ele adquiriu com o tempo ou caberia aí uma outra palavra?

2007-10-16 10:16:04

Outra palavra com certeza! Talento, acho que, no fundo, ele já tinha. Quem não tem talento dificilmente chega ao ponto de questionar-se.

 
 
2007-10-26 00:23:49

Gosto muito dos textos que leio aqui. São afiados, mas também bastante cuidadosos e sensíveis.
Quando eu passei a ler o Breviário pensei em contratar um de vocês para fazer uma crítica de um dos meus textos. (risos)
É lógico que o delírio passou e eu tomei vergonha na cara. (além da velha-máxima-dos-blogueiros-em-crise: vou deletar o meu blog, meus textos são um lixo, blá, blá, blá)
Espero que o seu amigo, por curiosidade, acabe por ler o seu relato sobre ele e decida seguir em frente. Não nascemos prontos. Escrever é um ofício para a vida toda e só se faz [lendo] e escrevendo.
Abraços.

 
Rafael Rodrigues
2007-11-10 00:34:57

Belíssimo texto, Paulo. Abraço.

 
Rafael Rodrigues
2007-11-10 00:35:55

Ah, e quando seu amigo enviar o original dele a alguma editora, uma sugestão: enviar como apresentação este seu texto.

 
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