Filósofos e seus problemas
Postado em September 17, 2007
Categoria Filosofia, História |
Sempre considerei que era uma grande vantagem ser brasileiro e estudar filosofia, por um motivo muito simples e, creio eu, verdadeiro. Porque estamos tão distantes dos grandes centros, das nações que foram berço das mais brilhantes doutrinas, ou seja, da Europa (e, mais recentemente, dos EUA, como sempre), ficamos livres para estudar as obras dos pensadores de todos esses países em pé de igualdade, sem ranços nacionalistas. E já me explico:
Em cada um desses países, os comentaristas são incapazes de não fazer a balança pender para o próprio lado; na França, o Idealismo alemão e o Empirismo britânico são considerados variações pouco espirituosas do racionalismo de Descartes, do raciocínio de Voltaire, da profundidade de Bergson. Popper e Russell nada mais são do que comentaristas de Poincaré e Bachelard, e fim de papo. Os renascentistas italianos, enquanto isso, nada mais representam do que uma preparação para as coisas maravilhosas que “o Hexágono” produziria nos séculos seguintes. Nariz empinado pouco é bobagem.
Com aos britânicos, esses seres tão pragmáticos, que parecem imunes às tentações de espiritualismos vulgares, não poderia acontecer de forma diferente. Para eles, qualquer coisa que não vá do empirismo diretamente para o utilitarismo, o liberalismo e a filosofia analítica, ora, só pode ser tolice, desses barroquismos literários tão ao gosto do “continente” (ou da Europa, que é o termo que usam quando querem esnobar). Quanto a tudo que foi produzido do outro lado do Atlântico, ora, francamente, “todo mundo sabe” que os EUA nada mais são do que um apêndice da ilha da rainha.
Na Alemanha, essa visão, hoje, deve ser menos forte, dado o esmagamento do nacionalismo no país, após os eventos traumáticos do último século. Mas para toda uma linha de filósofos, desde Kant e Hegel, passando por Schopenhauer e Nietzsche, até o incorrigível (e quase incompreensível, sejamos honestos) Martin Heidegger, a grande força motriz era uma filosofia que se encaixasse no que chamavam de “espírito alemão”. Perdoem-se, claro, os pensadores que viveram com intensidade o processo de unificação do país. Mas, para quem está do outro lado do oceano, é bom poder aproveitar só o que há de bom.
Portanto, se os alemães se consideram, ou melhor, consideravam, herdeiros da Grécia, e os franceses, herdeiros de Roma, nós podemos nos considerar herdeiros de todos eles. Ó, grande fortuna! Ó, grande desperdício, mais um em nossa tão curta história! Deveríamos aproveitar melhor essa sorte enorme! Está mais do que na hora de assumirmos nosso papel antropofágico, mas desta vez a sério, não em brincadeiras burguesas e provincianas de vanguardismo chutado e iconoclasta…
Como sempre, há o outro lado da moeda. Há o grande cano de metal que emperra a engrenagem e impede o trem de avançar. Nesse caso específico, acho que sou capaz de apontar onde ele está. Vejo, no Brasil, tanto nos jornais quanto nas universidades, na internet e nas revistas, nas conversas de botequim e nos debates públicos, uma tendência, ou melhor, uma mania, de encarar os grandes pensadores da história como “gente muito inteligente” e ponto final.
Traduzindo, a história da filosofia, em nosso país, é tratada como se fosse uma sucessão quase aleatória de gente brilhante e desocupada, que inventava idéias interessantes e escrevia bem (nem sempre), não tinha mais o que fazer e ficava tentando descrever a vida, a existência, o homem, o mundo, produziam doutrinas, compunham textos indecifráveis, levaram vidas miseráveis e assim por diante. Ou seja, a filosofia parece frívola, mas citá-la é uma ótima maneira de parecer brilhante diante da mídia, dos leitores, dos amigos e, por que não, da estudante de Sociologia em que se está de olho.
Que esses pensadores eram inteligentes, creio que não se possa discutir. Certamente houve filósofos de inteligência mais limitada, mas suas obras foram sendo esquecidas pelos leitores e se perderam na poeira do tempo. Entretanto, salvo exceções, eles não eram desocupados, nem se concentravam nos problemas ontológicos, éticos, epistemológicos, estéticos (e assim por diante) apenas para fazer passar o tempo. Eles tinham problemas muito claros a resolver, e foi sua investigação desses problemas que empurrou adiante a própria filosofia, a ciência, a arte e, por extensão, a humanidade como um todo. Avancemos por alguns comentários mais próximos, para efeito de ilustração.
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Outro dia, estive lendo o blog de um escritor muito admirado. Em um post, ele discorria sobre Leibniz e seu famoso postulado de que “vivemos no melhor dos mundos possíveis”. Uma vez que se saiba que essa declaração jamais existiu, ao menos formulada dessa maneira, já se pode adiantar que o resto do texto nada mais dizia do que um monte de tolices, pelo menos no que tange ao filósofo de Leipzig; se o escrito, como um todo, era belo, poético e verdadeiro, que o resultado seja creditado ao autor, não ao pensador citado.
Se criou-se a idéia de que Leibniz teria afirmado que o nosso mundo é o melhor possível, foi por causa de Voltaire, que escreveu seu famoso “Cândido” para atacar o otimismo que atribuía ao outro. Muito se discute se o autor francês fez uma leitura errada do alemão, ou se vulgarizou seu pensamento propositalmente, com vistas a um maior impacto no público. Pouco importa. O fato é que não se pode criticar Leibniz a partir de uma leitura de Voltaire. É confortável, a leitura é fácil, todo mundo vai achar maravilhoso, mas não dá certo.
Gottfried Wilhelm von Leibniz é conhecido mais como matemático do que como filósofo. Ele é um dos pais do cálculo integral, sem o qual seria impossível conceber praticamente tudo que a engenharia e outros engenhos exatos criaram a partir de então (estamos falando do final do século XVII e início do século XVIII). Acontece que a matemática era uma atividade que ele exercia quase como passa-tempo, nas horas vagas. Isso é um exagero, claro. Ninguém desenvolve algo tão complexo apenas nas horas vagas. Porém, a atividade principal do nobre filósofo não era a matemática, mas a jurisprudência. Leibniz, acreditem, era um jurista.
Mas ele teve a sorte de viver em tempos em que ainda era possível ser um estudioso avançado, paralelamente, em todas as áreas do conhecimento humano. O último desses grandes pensadores, segundo se diz, teria sido Goethe. E o mais famoso, Leonardo da Vinci. Gente que tenta manter um ritmo desses, hoje em dia, é considerado louco, provavelmente com razão, e recebe a alcunha, em inglês, de Renaissance Man. O nome diz tudo.
Voltando a Leibniz, encontramos um homem preocupado em formular um fundamento para o Direito, uma base de justiça que esteja vinculada o mais diretamente possível à Justiça eterna, ou seja, sendo mais direto, a Deus. Quanto a isso, no tempo em que ele escrevia, duas grandes doutrinas sobre o Altíssimo dominavam: a de Descartes e a de Spinoza. Ambas, para Leibniz, são incapazes de estabelecer um arcabouço metafísico para a formulação de leis. Em seu “Discurso de Metafísica”, ele se esforçará para mostrar como a absoluta liberdade divina defendida por Descartes e absoluta necessidade da Criação em Spinoza, tão opostas como parecem, encontram-se no que têm de mais defeituoso: negam a Deus sua perfeição e sua misericórdia, e impedem a determinação, cá na terra, do que sejam ações boas ou más do ser humano, ou seja, invalidam qualquer tentativa de estabelecimento de um sistema legal universalmente justo.
Não é o caso de tardar nessas explicações. O que quero demonstrar aqui é que o problema de Leibniz é muito concreto. Ele precisa reintroduzir na teologia a idéia de cálculo divino, de escolha de Deus na criação. Quando ele diz que o mundo realmente existente (a expressão é um anacronismo meu) é o melhor possível, refere-se à multiplicidade de opções com que o Criador teria se deparado no momento de fazer surgir o Universo. Se ele escolheu este, com todos os desastres e horrores, é porque era o mais adequado para realizar sua glória e sua graça, conceitos complicados e datados, que não nos interessam aqui. Nada parecido com o que disse Voltaire e crêem os leitores apressados.
É graças a esse grave e árido problema metafísico que Leibniz desenvolve a idéia das mônadas, espécies de “átomos” de substância (céus, mais um conceito que exigira laudas e laudas de explicação), que reproduzem dentro de si, cada um à sua maneira, a totalidade do Universo. Parece bobagem, talvez. Mas é graças ao conceito de mônada, abandonado pelos séculos seguintes, que Leibniz chegou ao cálculo integral. Portanto, é graças a ele que, hoje, temos elevadores, aviões, geladeiras, computadores. Ou seja: Leibniz não era um sujeito a quem faltava o que fazer.
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O segundo exemplo talvez seja ainda melhor: Arthur Schopenhauer, ídolo jamais lido de dez entre dez depressivos, e onze entre dez suicidas. Schopenhauer, considerado o filósofo do “tiro na orelha”, mas que, no entanto, condenou o suicídio com veemência. Se o lessem de fato, não pulariam do prédio.
Por acaso, Schopenhauer era, sim, uma pessoa que tinha muito tempo livre. Não precisava trabalhar para viver, era suficientemente rico para se dedicar ao violino e à sua grande obra, quase o único livro que escreveu na vida, O mundo como vontade e representação, que demorou décadas para começar a fazer sucesso e até hoje causa arrepios em muita gente, sobretudo quem se aventura a lê-lo. Mesmo assim, sua obra está longe de ser frívola. Ele é o primeiro de uma série de pensadores e escritores que, podemos dizer, “anteciparam Freud”. Nietzsche, Dostoievski e Bergson são alguns dos outros, mas Schopenhauer foi o primeiro.
Ele também tinha seu problema muito bem definido a resolver. Questionava-se sobre o impulso da vida, a necessidade de sempre agir, a angústia que sucede ao sucesso, as necessidades irresistíveis que o homem tem de ir à guerra, humilhar o vizinho, dedicar-se à arte. O princípio que ele encontra, chama de Vontade, que está presente em todo ser vivo. Uma planta vive segundo a Vontade de sugar nutrientes do solo e luz do sol; um marisco, da Vontade de grudar-se à pedra, resistir à força das ondas, criar uma colônia.
No ser humano, a Vontade assume uma faceta mais complexa. Ela se torna autônoma. O ser humano é o único para o qual a Vontade é autônoma. A inteligência humana faz com que nossa Vontade seja apenas de mais Vontade. Ela é insaciável. Nossas expectativas são irrealizáveis, porque logo se tornam outras expectativas. Precisamos crescer e ocupar espaços, precisamos sempre de mais e mais, precisamos aniquilar os outros e, no limite, a Vontade acaba por aniquilar a nós mesmos.
A Representação em questão é a forma que o mundo assume para nós, enquanto agimos sobre ele sob o comando da Vontade cuja existência mal conhecemos, e à qual não podemos dar um rosto. O suicídio, a que almeja tanta gente metida a seguidora de Schopenhauer, nada mais é, para o próprio, do que a última conseqüência dessa vontade que nos assoberba e aniquila. Não é solução, de forma alguma. O filósofo, ao contrário, oferece duas: primeiro, a ataraxia, ou seja, a purgação de todo desejo e ambição, como já postulavam os estóicos e as doutrinas orientais que Schopenhauer adorava; depois, a arte. Através da pura e desinteressada fruição artística, diz ele, consegue-se escapar momentaneamente ao domínio da Vontade. Schopenhauer era um amante da música, a mais abstrata e irresistível das manifestações artísticas.
A psicanálise, portanto, nasceu quando Freud deu nome aos bois, de uma maneira que, não é injusto dizer, vulgariza um pouco o pensamento de Schopenhauer (e pensar que tem gente que acha que lê-lo não serve para nada). Freud associou a Vontade de Schopenhauer, e que em Nietzsche havia sido transmutada em Vontade de Potência, às pulsões sexuais do inconsciente individual. Pronto. Nasceram Eros e Thanatos, esses dois conceitos tão poderosos dos últimos cem anos, conhecido por qualquer um que já pagou para se estirar no divã.
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O terceiro pensador que não era só um sujeito esperto, e prometo que será o último que mencionarei, é ninguém menos do que René Descartes, o mais quadrado dos pensadores, pai do cartesianismo, do plano cartesiano e do famigerado “Penso, logo existo”, que tanto se pode ouvir repetido em tom de mofa. Essa frase até existe, mas é uma menção passageira no Discurso do Método a um raciocínio das Meditações Metafísicas, onde, por sua vez, não é a conclusão do raciocínio, mas, ao contrário, seu ponto de partida.
O grande problema que Descartes enfrenta é a necessidade de criar um fundamento de certeza para as ciências. Cansado das bases aristotélicas de inspiração escolástica que sustentavam a ciência até então (a não ser por iniciativas como as de Galileu, Giordano Bruno e Copérnico), o filósofo, cientista e matemático francês considerou que era hora de romper com tudo que era dado como certo e começar do zero.
E resolveu ser radical. Não bastaria romper com os raciocínios que Aristóteles redigira havia uns bons dois mil anos. Ele precisava romper com literalmente tudo que fosse considerado certo: sua percepção, seus sentidos, seus sonhos, seu raciocínio, as leis da lógica e da matemática. Tudo isso, ele coloca em dúvida, recorrendo até a um gênio maligno, cujo único desígnio seria enganá-lo, apenas para não deixar dúvida quanto à seriedade da dúvida.
A partir da constatação simples e evidente de que, para poder pensar, ele precisa existir, e que, portanto, enquanto estiver pensando, necessariamente ele existe, surge seu grande primeiro princípio: eu penso, eu existo. E, ao final de um longo raciocínio, obtém-se o grande princípio que norteará sua noção de ciência: algo é certo quando é evidente. E uma coisa só pode ser inteiramente evidente quando for simples. Daí seu amor pela geometria. Daí a invenção do plano cartesiano, que transforma qualquer corpo, qualquer trajetória, em simples, claras e evidentes coordenadas.
Descartes é, bem se vê, o pensador que tentou chamar a nossa atenção para a evidência. Peço desculpas a Nelson Rodrigues, um de meus grandes ídolos na literatura, no jornalismo e no futebol. Disse Nelson, certa vez, que sua maior contribuição para a humanidade foi a descoberta do óbvio. Mas ele chegou atrasado. O óbvio já havia sido descoberto três séculos antes, do outro lado do mundo, por um sujeito quadrado e um pouco chato, chamado René Descartes.
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Tudo isso foi a maneira que encontrei para demonstrar que a filosofia, ao contrário do que pode levar a crer um certo quadro de Rembrandt exibido no Louvre, não é feita por um velho barbudo trancado na torre de um castelo. Montaigne é um exemplo contrário, tudo bem. Mas ele só fez isso depois de uma extensíssima participação no mundo real, particularmente no processo político do Périgord (Montaigne foi prefeito de Bordéus).
A filosofia sempre andou de mãos dadas com a ciência e a arte. Sempre esteve com o olho muito próximo dos problemas de seu tempo. Sua maneira de pensar é, em geral, universalista, claro. Mas isso acontece porque, sem uma noção de lastro, de transcendência e de permanência, o homem não pode agir como tal, e acaba se entregando a reações instintivas e animalescas, indignas de sua própria condição.
Falar de filosofia como uma reflexão conduzida de nuvem para nuvem é prova, mais do que de ignorância, de um engessamento na capacidade de inovação. A ciência é perfeitamente capaz de resolver problemas, mas só a filosofia é capaz de criá-los. Ela problematiza. Busca nas brumas do tempo corrente os elos das questões do tempo futuro.
Arrisco dizer que é a ligação entre a arte e a ciência: a arte está sempre adiantada em relação à filosofia, e a filosofia, em relação à ciência. Mas isso é tema para outro post.
Gostei muito do texto, como também de praticamente todos os outros do blog.
É estranho, mas depois que passei a ler o teu blog e os outros do Breviário comecei a me interessar de verdade pela filosofia(que nada tem a ver com a área que decidi seguir, por enquanto).
Fora algumas leituras sobre determinados filósofos, nunca cheguei a ler alguma obra completa… Alguma sugestão?
Parabéns pelo blog,
Abraço.
Puxa, Xará… Difícil. Sugiro começar por alguma “História da Filosofia”… Não sei como são seus hábitos de leitura, mas tem desde os mais completos (e extensos) até uns mais fáceis, até lúdicos, como um que chama Antologia Ilustrada, ou História Ilustrada, ou alguma coisa assim.
Quanto a uma obra específica de algum filósofo, aí depende muito do que te interessa mais…
Um que é bem completo é o Banquete, do Platão. Taí, sugiro esse…
Olá, Paulo.
Gostei muito do texto, especialmente da distinção entre as idéis de Voltaire e Leibniz, que são muito confundidas.
E Cândido é um livro delicioso.
Abraço.
Pois é, lendo Voltaire, neguinho pensa que Leibniz era um idiota!
Meu caro
V. não é nada ambicioso quando diz pretender um epitáfio como o que eu fiz para o meu herói. Mas tem razão não podemos ambicionar mais…
Sua lição de filosofia é ao mesmo tempo, despretensiosa e profunda . Difícil tarefa . Agradeço-lha .
Geraldes de Carvalho