Do inútil (ao fútil)
Postado em September 11, 2007
Categoria Arte, Filosofia | 4 comentários
Já ouvi dizer, inúmeras vezes, que a arte é inútil. E está certo. Aliás, certíssimo. Embora um olhar panorâmico revele uma infinidade de funções ou utilidades possíveis para a arte, embora se possa perfeitamente ver nela muito de educativo, político, catártico, psicológico e assim por diante, embora o ser humano seja incapaz de viver sem um mínimo que seja de arte, ela é, sim, algo inútil, naquilo que tem de mais profundamente artístico, naquilo que faz com que ela seja propriamente arte, e não propaganda, manual, análise, teoria. Quando vemos utilidade na arte ou arte na utilidade, é porque uma contaminou a outra. Talvez a ponto de se tornarem inseparáveis, tudo bem, ou de se potencializarem mutuamente. Mas o elemento propriamente artístico, precisamos ter sempre em mente, é inútil e ponto final.
É importante precisar que falo de um inútil muito específico, que é justamente, veja só o nome, o sentido utilitarista do termo. Discursando como um bom economista, coisa que nunca fui, mesmo quando era, de fato, economista, a arte não aumenta o bem-estar de nenhum agente racional. Veja como é curioso: duas das definições que são mais usadas para classificar o ser humano são incompatíveis entre si: somos, por um lado, racionais (em algum lugar, deve existir essa razão). Por outro, somos o único ser vivo que produz arte, aquilo de mais irracional e inútil que existe. O humano, pelo visto, não é assim tão fácil de definir.
Fui atacado muito recentemente com a constatação da inutilidade da arte, quando, discutindo com um amigo que faz toda questão de gostar do que a vida oferece de melhor, mencionei de passagem que a gastronomia é inútil. Que me importa, poderíamos dizer, se o molho da vitela está esplêndido e vai muito bem com um Chianti sei lá qual? Quero mesmo é que encha a barriga. O mesmo vale para a moda: e daí que o casaco verde me deixa com um ar ridículo e meio gordo? Preciso dele para me esquentar. E, claro, o futebol: e daí que o Fla-Flu da próxima semana vai decidir o campeonato? Futebol, com todas as suas angústias e vibrações, não serve para nada. É inútil, inútil, inútil.
E a resposta do fulano foi: é claro que é inútil, mas não é mais inútil do que ler e declamar os sonetos de Bocage ou contemplar uma paisagem de Van Gogh. Debater temas artísticos, então, nem se fale. É como discutir o sexo dos anjos; não se pode chegar a conclusão alguma. Com essa última frase, eu não poderia concordar mais. Não há maior panaca do que um desses diletantes metidos a críticos, ou esses críticos metidos a críticos, que querem decretar uma interpretação ou uma avaliação específicas da arte, como se ainda vivêssemos no século XVIII.
Foi quando me dei conta de como o humano, esse ser racional e tão escatologicamente espiritual, é dado a coisas inúteis. Voltando ao discurso de um economista radical, nossa espécie é um desastre. Somos incapazes de maximizar nosso potencial produtivo. No velho dilema entre a manteiga e os canhões, já preferimos os segundos, depois os trocamos pelos quadros, depois os carros esporte, depois os vestidos de luxo, depois os pequenos aparelhos que fazem “bip” e tocam 600 músicas diferentes. Sem contar que a própria manteiga, a rigor, é um luxo desnecessário, já diria um cínico da monta de Diógenes, que jogou fora seu último bem, uma cuia, quando concluiu que era capaz de beber água usando apenas as próprias mãos.
Qualquer doutrina de maximização, utilidade ou eficiência sempre escorregará nesse aspecto de nossa gloriosa e trágica espécie. Somos incapazes de maximizar, e muito orgulhosos disso. Somos lindamente, esplendorosamente ineficientes. Viva! Que tolos somos, não? Se, em vez de investir em nossa produtividade, no aumento da oferta de bens, entregamo-nos aos mais vazios dos vícios, como o desespero de uma partida de futebol, a sutileza de uma escultura monumental, as delícias de um vinho bem envelhecido, os questionamentos sobre o insondável sentido e a remota origem da vida, a elegância de uma mulher bem cuidada.
Mas, antes que censurem toda a nossa raça, quero chamar atenção para o outro lado da questão: quem mais é capaz do inútil, senão os humanos? Que outra espécie vive de interesses que não têm uma finalidade prática bem definida? Algum dia vamos ver um cão, um cavalo ou um leão que façam algo de suas existências que não vise matar a fome, procriar, dormir e se proteger? Tanto esforço se faz, na biologia, na filosofia, na psicologia, para traçar a definitiva fronteira entre homens e animais, sem chegar a uma solução que não seja meramente quantitativa (o homem é mais inteligente, tem uma linguagem mais complexa e uma habilidade manual mais desenvolvida). Talvez fosse o caso de procurar por aí. Nós, as pessoas, fazemos coisas inúteis durante a maior parte do nosso tempo, seja por prazer, impulso ou passa-tempo. O útil, no mais das vezes, é passageiro e soterrado por uma enorme camada de inútil enfeitado.
Por isso, quando como, dificilmente estou apenas pensando em matar a fome. Ou quero ter um prazer específico, o gastronômico, ou quero que alguma outra atividade a que eu me dedique, por exemplo, escrever, a mais inútil de todas, não seja interrompida por um aperto do estômago. Se me visto, não é apenas pelo frio, mas porque não quero ser encarcerado por atentado ao pudor, ou porque quero ter uma aparência bacana, seja para atrair fêmeas (com as quais posso querer copular, jamais procriar), seja para conseguir um bom emprego. Ô coisa inútil, o emprego! Se eu fosse me fiar pelo útil, comeria sempre batata, jogaria qualquer pano sobre as costas e moraria na primeira caverna que me aparecesse.
A partir de agora, pensarei duas vezes antes de criticar qualquer coisa, objeto ou atitude, pensamento ou empreitada, seguindo a lógica de que aquilo “é inútil”. Eu mesmo passo quase todo meu tempo absorto em enormes inutilidades. A própria crítica, aliás, é inútil. Se eu fosse me dedicar apenas ao útil, nem me preocuparia com o inútil alheio, ora pois não.
Ao mesmo tempo, como tudo na vida, mesmo o inútil tem limites. E ele se chama fútil. Como definir o fútil? Ainda não sei, mas ele certamente existe. Porque mesmo o inútil se presta a algo. É graças a ele que mantemos nossa vontade de viver, realizar algo, manter-nos em movimento. Saídos das selvas e savanas, ou da animalidade, como diria Rousseau, é para as coisas inúteis que transferimos a maior parte da pujança de nossa vontade. E a vontade, advertiram Schopenhauer, Nietzsche e Freud, é a mais perfeita tradução de nossa força vital. Sem a dedicação a coisas inúteis, mas às vezes belas, às vezes sublimes, às vezes apenas interessantes, como a arte, o amor, o esporte e a política, o que seria nossa vida, senão uma pasmaceira insuportável?
Chamamos algo de fútil quando temos a sensação de que esse movimento em direção ao inútil vai longe demais. Quando nos parece que uma determinada inutilidade não se presta nem a purgar as misérias, nem a elevar a alma, nem a proporcionar um prazer que só nós, humanos, podemos ter. Em resumo, quando sentimos que o objeto de nossa atenção é vulgar e prejudicial à deliciosa vacuidade da vida humana, apenas por ser ainda mais vazia.
Assim sendo, mesmo ainda incapaz de delimitar o que seja o fútil em comparação ao inútil, sinto-me no direito de alterar a fórmula de meu desprezo, minha crítica e minhas esnobadas. Em vez de classificar alguma coisa de “inútil”, direi simplesmente, no tom mais cáustico que minha glote puder formular, que é fútil. Nada mais.
a melhor leitura do dia. era justo o que eu mais precisava. agora quero ver se convenço meus alunos de quinta série dessa sua idéia.
duvida?
Pesquisando sobre a inutilidade a arte encontrei seu texto. É fantástico!
E seu lhe disser que seu texto foi-me extremamente útil, justamente pelo fato de ser essencialmente inútil?
Adorei.
E se eu lhe disser que o seu texto foi-me extremamente útil, justamente pelo fato de ser essencialment inútil?
Adorei!!