Sobre um encontro fortuito
Postado em August 27, 2007
Categoria Arte, Literatura | 7 comentários
Estive, por esses dias, com um amigo que não via há tempos. O sujeito tinha, para colocar em poucas palavras, desaparecido. Ficou semanas sem falar com ninguém, sem dar notícias, sem aparecer. De repente, eis que nos esbarramos, num caminho inabitual; não é o meu, tampouco o seu. Tive a sensação de que ele quis me evitar. Foi impossível, eu já o distinguira, e abria os braços para cumprimentá-lo. Foi obrigado a interromper a marcha.
Perguntei-lhe o que tinha acontecido, por que rompera o contato com o mundo, onde se enfiara. A princípio, ele não quis falar. Esquivou-se de minhas perguntas como pôde. Mudou algumas vezes de assunto. Mas não sucumbiu às minhas investidas reiteradas. Acabou tendo que dar explicações, e confessou:
“Precisei, mesmo, sumir um pouco. É que eu senti necessidade de aperfeiçoar a minha arte. Andava frustrado com o que produzia. Estava muito ruim, eu não avançava… Não agüentei. Parei tudo, e ficarei assim até encontrar meu caminho.”
Algumas precisões se fazem necessárias. O rapaz em questão é um poeta de primeira linha, daquela cepa, hoje tão rara, que se ocupa de cada verso que compõe com o esmero que se espera ver dedicado a um filho recém-nascido. É alguém cuja maior ambição na vida é levar a palavra ao ápice de suas possibilidades expressivas. Portanto, se diz que precisa retrabalhar sua arte, a coisa é séria.
Ao mesmo tempo, o cara é como uma cartola de mágico de onde, em vez de coelhos, saem idéias e iniciativas sem parar. Já apareceu com planos para divulgar a literatura, para unir os escritores, para isso e aquilo. E, de fato, ele investe muito de seu tempo nos projetos que inventa, embora a maioria deles continue em teimoso estágio embrionário. Sempre me admirou seu impulso constante de realizar, que vinha a par com a cuidadosa produção artística.
Agora, de uma hora para outra, eis que todos os projetos, as boas idéias, se congelam. Sem aviso, sem explicação. O espírito incansável, de um golpe, sentiu o descompasso entre sua energia e a marcha lenta e certa do mundo ao redor. Estacou. Recolheu-se, em busca de uma nova digestão do que se passa em sua alma tumultuada. O que quer que seja, quer devolvê-la ao mundo na forma de uma poesia ainda mais intensa, mais perfeita, mais sua.
Como ele deixasse claro que a perspectiva de se alongar na questão o incomodava, achei por bem não provocar à toa seu sofrimento, e me despedi. Desde então, não tornei a vê-lo. Continua em sua busca. Para ser sincero, não consigo deixar de considerar que esse meu amigo tem uma queda pelo romantismo. É seduzido, creio, pela idéia do poeta que tem, como fonte de inspiração, algum nervo, alguma glândula escondida dentro de si próprio, lá no fundo, atingível apenas através de uma imersão irrestrita, fruto da vontade que só os artistas, esses mais-que-humanos, podem ter o desprendimento de desenvolver.
Não posso culpá-lo. É um ponto-de-vista que nos atrai quase naturalmente. Homero era cego, e via através das almas. Não é o que se diz? Tirésias, o adivinho, era igualmente cego. Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia, tem um parágrafo inteiro sobre as desgraças de Édipo, que, ao final de todas as suas desgraças, tendo cometido os mais terríveis crimes, furado os olhos e amaldiçoado os filhos, tornou-se um semideus.
Meu amigo poeta não deixa de estar certo de querer manter-se por algum tempo recolhido à escuridão de suas próprias paredes. Apenas ele, o papel e a tinta. João Gilberto é um que fez algo parecido, mal comparando. Meteu-se em Diamantina sem avisar ninguém e voltou de lá, meses depois, com a batida da Bossa Nova. Mas voltou. Há quem não volte. De que adianta?
O que não pode ser esquecido por meu amigo na berlinda é que sua arte, como toda outra, é um diálogo com o resto da humanidade. Compreensível ou não, boa ou ruim, rasteira ou elaborada, é só no espaço público que a arte se realiza. Como, por sinal, qualquer outra atividade humana. Ele será artista na medida, e apenas na medida, em que se colocar perante um mundo povoado de gente como um indivíduo que faz arte e, mais do que fazê-la, está preparado para defendê-la.
É neste ponto que entra o outro lado da personalidade do poeta. Sua faceta realizadora, produtiva, constantemente ativa. O jovem poeta parece crer que é necessário amputar esse aspecto de seu ser para poder realçar e aperfeiçoar sua arte. Mas ele se esquece de que o artista é, antes de tudo, uma espécie de – e desculpe a imagem horrorosa – “bactéria espiritual”. A bactéria “material” é um bicho que não faz praticamente nada da vida. Só sintetiza as proteínas do meio e as transforma em mais bactéria. Ora, o que faz o artista, senão sintetizar o intangível que há dentro e fora de si, e transformá-lo em mais e mais arte? Não é o caso, para o poeta, de sufocar uma metade de seu espírito para soprar vida na metade oposta. Isso seria um empobrecimento. Seria um desperdício e uma mentira. Porque será só metendo a mão em sua alma como um todo que o poeta realizará sua arte como deseja.
Acredito que, após seu período de imersão na caverna, ele retornará. Retomará suas atividades com fôlego renovado. Exibirá ao mundo o resultado de suas meditações. Romperá as barreiras que encontrar na realidade, tão dura, que se apresentará. É uma questão de tempo.
Olá, Osrevni, seu post me lembrou o verso de Appolinaire, em tradução literal: “Como a vida é lenta, como a esperança é violenta”. Tirado do poema, “Le Pont Mirabeau”. Muito bom o texto.
Sou apaixonado por esse poema!
Mas só inspirando textos assim, o alcance de sua poesia já é evidente. =]
Valeu Dael! Diga isso a ele também! hehehe
Tudo que é vivo precisa também da noite. =)
(Onde li isso? É Nietzsche?)
Tem toda pinta!
Realmente um poeta de sorte, receber um post assim! Tomara que esse tempo de reflexão lhe traga um bom proveito. Mas você sabe, eu sou pessimista e acho que ele estagnará nesse ponto. Caminho não existe, só o trilhado. Às vezes quando alguém se recolhe numa caverna, passa a haver só a escuridão: o nada e rocha palpável, e também as armadilhas naturais. Não sei, mas quem sabe ele próprio não parta disso. Vai saber; se você diz…