Hominídeos de Kubrick e monstros do Rio
Postado em August 14, 2007
Categoria Arte, Cinema, Filosofia, História, Política | 3 comentários
Alguns meses atrás, quando assaltantes, sob o efeito das drogas e da nossa atávica incapacidade de ser uma nação, arrastaram um menino de seis anos por uma avenida da Zona Norte do Rio de Janeiro, meti-me numa discussão acerca da natureza humana ou, em outras palavras, da definição do humano. Foi um momento delicado do nosso “debate social”, em que não faltavam vozes a se alevantar pela pena de morte; não por causa do crime em si, deve-se frisar, o que seria uma decisão jurídica legítima, embora discutível. Mas porque, no dizer de nove entre dez “pessoas de bem” (autodenominadas) no país, esses monstros “não são gente”, ou seja, “são animais”.
Nem vou abordar a questão racial. É evidente que esses rapazes, descidos de um morro próximo ao local do crime, não eram “brancos”, ao contrário dos outros rapazes, descidos de um edifício de luxo na Barra, que deram “uns cascudos” numa senhora de classe inferior (não branca), porque a confundiram com uma prostituta (aí sim, não faria mal. Não é gente, merece morrer, certo?). Sei bem que poucas vozes se ergueram para condenar peremptoriamente esses garotos. Até ficaram com pena do pai, pobrezinho, que lavou as mãos da culpa de seu filho. Coisas do Brasil.
Mas o ponto que chama atenção é outro. A barbaridade dos criminosos foi tanta, que logo pensamos: “Seres humanos não fazem isso. Eles são inferiores. São monstros. São animais”. Descontada a natural confusão entre o que seres humanos fazem e o que eles deveriam fazer, o que resta é uma problema fundamental, para o qual todo mundo pensa ter sua resposta, mas, lamento, não tem. O que é a natureza humana?
A pergunta é, sim, um problema. Desde o princípio. Quando a formulamos, que tipo de resposta buscamos? Poderíamos traduzi-la como “O que o ser humano faria se jamais tivesse desenvolvido a civilização”? Ou como “O que está em nós que é apenas nosso, e de nenhum outro animal”? Ou ainda “o que é que, do nosso comportamento, não é determinado pela educação que recebemos ou o meio em que vivemos, mas pela pura e simples genética”? Ou seja, não sabemos nem mesmo o que queremos perguntar, quanto menos qual é a resposta.
A primeira abordagem à pergunta foi atacada com muito afinco por alguns pensadores que já se convencionou chamar de “naturais”, nos séculos XVII e XVIII, principalmente. A denominação caiu um pouco de uso, principalmente porque todo esse naturalismo nada mais era do que uma ferramenta metodológica. Thomas Hobbes dizia que a natureza humana era, digamos assim, má, e o homem do “Estado de Natureza”, antes de se unir em civilizações com leis, juízes e regentes, vive em estado constante de guerra. Todos contra todos. Já Rousseau (aquele que era um péssimo pai) considerava a natureza humana intrinsecamente boa, e a degeneração, origem de todas as guerras, começa a acontecer no mesmo instante em que nos afastamos da natureza. Quanto mais longe, pior. Cada um usou sua formulação para desenvolver seu sistema filosófico. Nenhum deles as via como uma realidade em si, mais ou menos como nenhum matemático pensa que um algarismo possa ser encontrado na natureza.
A terceira abordagem é a que empregamos, talvez sem saber, quando, confrontados com coisas (em geral negativas) como o egoísmo, a violência gratuita, a licenciosidade, a mesquinharia, dizemos para nós mesmos, enquanto meneamos a cabeça: “O ser humano é assim mesmo. Incorrigível. Não adianta querer mudar”. É, em geral, a expressão de um certo ceticismo imóvel. Ou, por outro lado, serve para justificar algumas atitudes que a ética costuma condenar.
Resta a segunda abordagem. Fora os carrões, os canhões e os vestidinhos em promoção, o que é próprio do homem? Próprio, eu disse? Perdão, quis dizer exclusivo. Que possamos fazer arte e compras, guerras e tratados, viagens e feijoadas, é efeito de algum atributo todo nosso, ou seja, uma diferença qualitativa com relação às outras espécies? Ou nosso cérebro é apenas maior?
É nesse ponto que entram os hominídeos de Kubrick, aqueles macacos de pêlo negro que aparecem no início de 2001 (Uma Odisséia no Espaço), atirando ossos para o alto ao som de Assim Falava Zarathustra, de Richard Strauss. Não, não estou dizendo que a diferença entre o homem e o animal é que nossos ancestrais, um dia, encontraram um monolito, tocaram nele e, daí por diante, tornaram-se gente. Mas é interessante observar a seqüência das cenas. Primeiro, um grupo procura comida em arbustos, disputando espaço com tamanduás inconvenientes, no meio da ossada de um ruminante morto há tempos. Em seguida, a única poça d’água do lugar começa a ser visada por um outro grupo de gente em disfarces peludos. O primeiro grupo, que acompanhávamos, é mais fraco e, sem que seja necessário um murro sequer, entrega o ouro ao inimigo.
No dia seguinte, após o fantástico evento, registrado pela história, do encontro com o monolito, um desses macacos vai passando seu tempo no meio da ossada, quando tem uma idéia (insight, diria um neurologista). Toma um daqueles ossos e descobre que pode esmigalhar os demais. Em seguida, apresenta a arma recém-descoberta aos colegas, que a adotam de imediato.
Eles, porém, ainda não têm confiança na nova condição. Quando o mesmo grupo do dia anterior resolve tomar água em sua poça, eles não partem imediatamente para o ataque. O líder, provavelmente o mesmo que fez a descoberta em primeiro lugar, avança lentamente, enquanto os demais guardam uma prudente distância. O que assumiu a vanguarda olha para trás com freqüência, desconfiado de que os colegas esperam a primeira oportunidade para desertar. Do outro lado, um dos inimigos, o mais bravo, resolve acabar logo com a palhaçada e avança poça adentro. O primata do osso recua. Tem medo. Mas, logo que o inimigo erra o golpe, ele lhe desfere uma ossada no crânio, que o derruba na hora. O vencedor demora para entender o que aconteceu. Afasta-se. Retorna em passos incertos. Desfere outro golpe. Não vendo reação, começa a dar um depois do outro, no frenesi do deslumbramento. Só então seus colegas se aproximam, com berros ameaçadores e mais cacetadas na massa inerte ao chão. Eis o marco inaugural da humanidade. O passo seguinte é HAL 9000.
O que essa cena nos diz sobre a natureza humana? Tudo. Podemos ver aí a coragem e a covardia, o medo, o companheirismo, o egoísmo, o altruísmo, a guerra, a formação de grupos e a rivalidade entre eles, a invenção, a disputa de território. Um etologista não faria melhor. Esse pessoal ainda não é bem humano. Podemos dizer que, hoje, as descobertas não são mais feitas no meio de ossadas, mas dentro de laboratórios. Podemos dizer que as guerras não se lutam mais pelo controle de poças d’água, mas poços de petróleo. Podemos mesmo dizer que a covardia é punida e dissimulada. E que as novas descobertas são testadas antes de serem postas em ação. Mas as atitudes, de maneira geral, estão presentes.
Isso responde uma parte das questões. Nosso comportamento, pelo visto, não seria lá muito diferente se jamais tivéssemos nos civilizado. Seria apenas menos codificado, talvez. Ou menos justificado, para usar uma palavra algo mais polêmica. Eis uma diferença fundamental: como seres humanos, podemos considerar a coragem boa e a covardia ruim. Podemos recompensar uma boa sacada e punir uma atitude que parece prejudicial ao coletivo. Podemos até alterar nossas noções de uma coletividade. Um dia, foram tribos de hominídeos com uma poça d’água. Depois, cidades. Países, nações, povos, religiões, times de futebol, sociedades secretas. A lista não tem fim. Alguns malucos, é assim que os chamamos, tentam mesmo imaginar uma humanidade em que esses grupos não precisem se formar, e o coletivo seja expandido para significar toda a espécie. Delírio? Utopia? Vai saber… Mas, quando damos de ombros e dizemos que o homem não muda, é possível que cometamos um excesso de rigor. Muda, sim. O tempo inteiro.
Resta uma última questão. Muita gente, sobretudo os neurologistas, estão convencidos de que tudo que a humanidade construiu em sua curta história, de que já conhecemos tão poucos episódios, é fruto de uma diferença meramente quantitativa nas capacidades cerebrais. Ou seja, não temos nada de particularmente diferente, somos apenas mais inteligentes. Ponto final. As evidências parecem demonstrar exatamente isso. Assim como macacos têm uma certa linguagem, apenas mais simples que a nossa; assim como eles também transmitem conhecimento, apenas não possuem estudos como os nossos; assim como são capazes de se sacrificar pelo grupo, como alguns de nós, as funções cerebrais que se ativam ou apagam são como versões simplificadas das nossas.
Perfeitamente. Porém, se olharmos do ponto de vista da resultante, teremos uma realidade totalmente diferente. Com as mesmas funções, apenas mais desenvolvidas, somos capazes de agir sobre o mundo de maneira qualitativamente diferente. Como, vá lá, Jimi Hendrix, que tinha tantos dedos quanto eu (mas era canhoto), fazia na guitarra coisas com que nunca sonhei; e não é só que ele tocasse “mais rápido” do que eu, como um Malmsteen da vida ou tantos de meus colegas. É que, com suas funções musicais mais desenvolvidas e seu empenho maior no aprendizado, o gênio desenvolveu uma forma de tocar qualitativamente diferente da minha, não só quantitativamente.
Ocorre o mesmo entre nós e os demais mamíferos superiores. Um chimpanzé é capaz de pintar um quadro, se alguém lhe ensinar como se tratam as cores e formas. Mas seu quadro não terá a mesma reflexão estética de um artista do calibre de Cézanne, por exemplo. Ainda assim, é capaz que o quadro do macaquinho saia melhor do que um quadro meu. Não é sempre que somos tão diferentes assim dos animais. Só quando exercemos, de fato, aquilo que temos de quantitativamente superior. Só quando refletimos, ou seja, usamos nossas capacidades intelectuais mais desenvolvidas para uma ação volitiva sobre o mundo. É a isso que damos o nome de razão, de que temos tanto orgulho, consideramos coisa nossa, e empregamos tão raramente.
Podemos voltar aos assaltantes do Rio de Janeiro. Em que são eles menos humanos do que o próximo? A crueldade não é novidade. Permeia toda a nossa história, e quem se interessa por esse tipo de assunto não vai ficar sem leitura de cabeceira. Reis, bispos e grandes empresários são capazes de atos tão nefastos quanto os dos jovens irresponsáveis da nossa vida urbana. A teoria da “não-humanidade” dos rapazes não se sustenta. Se quiserem executá-los, que seja por outro motivo.
Mas a “gente de bem” insiste em diferenciar-se dessa escória. Claro, faz sentido, pega mal. A diferença, a qualitativa, precisa se limitar às fronteiras da espécie humana. Se as crueldades que eu cometo são muito menores do que arrastar um menino inocente pelo cinto de segurança do carro de sua mãe, onde está a diferença? Quer uma opinião? Eu diria que é porque eu sou civilizado. Palavra mágica: civilizado. Já eles… não são. Certo?
E qual é o milagre que faz com que, de duas pessoas nascidas no mesmo país, aliás na mesma cidade, uma seja civilizada, e a outra, não? Eis a pergunta que se deveria perguntar, e não se essas pessoas “não são humanas”. Mas é uma pergunta difícil para nossa sociedade, que não vai querer se enrolar com ela. Se, afinal, em pleno século XXI, o toque milagroso da civilização não consegue chegar a tantos membros de um mesmo povo, de um mesmo país, é porque há alguma coisa muito errada. Digo mais: só quando nos convencermos de que isso é um problema muito, muito grave, é que poderemos sair à rua sem medo de levar um tiro.
De facto a tua perspectiva sobre o assunto não me deixa nada perplexo pois eu sei que nós, humanos, somos capazes do melhor e do pior. E quando somos capazes do pior acho que não nos podemos equiparar aos animais. Mesmo as coisas mais atrozes são feitas por uma razão qualquer (e é de sublinhar a palavra razão pois até à data ainda não há dados concretos de uma certa racionalidade em alguns animais mas não me espantaria se um dia ela fosse detectada).
Acho que nós, humanos, somos capazes de tudo. Até mesmo de romper as fronteiras daquilo que faz com que o sejamos. Por que não? É perfeitamente possível!
somos sagrados e profanos.