Por quem esses suspiros?

Postado em August 6, 2007
Categoria Arte, Filosofia, História, Política |

Você me disse, uma vez, que nasceu na década errada. Que nossa época não tem a menor graça e nada de extraordinário acontece. Você torce o nariz quando faço menção à tal Web 2.0, aos blogs, à comunicação instantânea através do globo terrestre. MP3, você diz, lhe dá sono. Fim dos discos? Fim do papel? E daí? Não é possível enfiar na sua cabeça que tudo isso represente mesmo alguma mudança no mundo. Tanta novidade, e você chama de bagatela. Mas se vira com elas com a maior facilidade, escreve para o mundo todo, com a convicção sincera de que alguém vai ler. E não se importa se acusarem um toque de hipocrisia.

Ah, você suspira, que bom seria, ter sido jovem nos anos 60. Participar das manifestações, experimentar as drogas quando ainda se achava que elas libertariam a humanidade, crer nas utopias malgrado o nome que carregam. Eram um tempo extraordinário, você diz, com os olhos pregados nas estrelas. Depois daqueles anos loucos, o mundo jamais seria o mesmo. Alguns de seus maiores heróis pagaram caro para revolucionar nossas vidas. Que honra teria sido, não?, morrer pelas causas e pelo experimentalismo, ser um Jimi Hendrix, um Martin Luther King, um Syd Barrett, um Jan Palach, uma Janis Joplin, um Che Guevara, um Jim Morrison, um sorbonnard enragé! Que tédio, passar os dias a reclamar de Lula e Bush…

Entendo sua paixão pelo passado. Eu mesmo já prestei intermináveis reverências a essa década tão cheia de lendas fantásticas e trágicas. Já fui um beatlemaníaco, eu também. Você tem razão quando diz que são dez anos que concentram tanto movimento da história quanto alguns séculos anteriores. Cada louvação sua, para o tanto que se experimentou, o tanto que se descobriu, as loucuras que se cometeram, são justificadas. É tudo verdade.

Antes da década de 60, o que havia? Os anos 50, subúrbios de Nelson Rodrigues, donas-de-casa exemplares, colégios internos, adultérios e funcionários engravatados. De repente, uma bomba. O ácido lisérgico. “A pílula”, que, de tão impactante, dispensa qualificativos. A minissaia, o biquíni, John Lennon e Mick Jagger, Godard e Bergman. A overdose, os estudantes nas ruas, trotskismo, maoísmo, panteras negras, paz e amor. Era nesse meio que você queria viver. Comparecer a Woodstock, ao concerto dos Rolling Stones em que os Hell’s Angels de Nova York roubaram a cena. Quebrar vidraças em Nanterre e fugir da cavalaria na Cinelândia. Entendo que você ache nossa vida, hoje, muito sem graça.

Sob que signo nasceram, pois, os anos 70, depois do furacão que varreu o decênio anterior? O de Pink Floyd, Led Zeppelin, Nixon e Brejnev. Não havia mais Beatles, o homem dava seus pulinhos na lua, o casamento e a igreja pareciam ter se tornado coisa do passado. Parecia outro planeta. Pouco a pouco, o espírito libertário foi se apagando, bem como a vontade de experimentar e descobrir coisas novas, na vida como na arte. O cinema de autor foi morrendo, o rock cedeu seu lugar ao pop. Malevich, Pollock e Warhol foram suplantados pelos departamentos de criação das agências de publicidade. A juventude cansou-se de si mesma e travestiu-se em yuppies.

A libertação que as drogas pareciam trazer transformou-se em vício sem sentido. É uma vitória, de certa forma. Já somos tão livres quanto os narcóticos podem nos deixar. Daí por diante, só resta o auto-consumo, o tráfico, a dependência. Não há mais nada que as drogas possam nos trazer, como naqueles tempos, de grandioso e revolucionário. E, no entanto, estão aí, e não conseguimos nos libertar delas, elas que um dia vieram para nos libertar.

A tal ponto as mudanças foram incorporadas, que parece mentira que os dois vídeos abaixo tenham sido realizados com cinco anos de diferença. O primeiro é de 1962. O segundo, de 1967. Ambos representam o que de mais transgressor e moderno havia em seu tempo. Até mesmo a postura do músico, crítico e apresentador improvisado Hans Keller, no segundo programa, seria impensável nos tempos de hoje, com sua opinião exposta sem rodeios e a agressividade das perguntas e assertivas. O entrevistador contemporâneo contemporiza. Ou, ao contrário, perde a linha e metralha acusações e palavrões a esmo. A comparação é fantástica.


(Aqui deveriam ter entrado dois vídeos do Youtube, mas parece que o Wordpress não gosta. Então vou ter que deixar os links, mesmo. Azar. Eis o primeiro. E o segundo.)

Será essa aparente frieza moderna que leva seu coração a bater pelos tempos passados? A sua nostalgia é construída em cima de imagens? Ou mitos? Você ousa imaginar como todos aqueles anos foram tempos em que pessoas viviam, morriam, tinham filhos, estudavam e trabalhavam? Parece outro planeta. Você, que só tinha coragem de perder aulas na faculdade se fosse para jogar truco, agüentaria viver entre os hippies, entre as lombrigas e os problemas de grana? Ou passaria suas tardes diante da televisão, cabelos desgrenhados e chinelo de dedo, acompanhando as jogadas estonteantes de Pelé e Flávio Minuano? Você atiraria coquetéis molotov contra as tropas de Castello Branco? Ou voltaria para casa aos prantos, depois da primeira bad trip?

Acreditava-se em tanta coisa, naquele tempo. Tudo isso, para nós, soa tão ingênuo! Então é possível que a humanidade viva de amor? Se nos disserem isso, hoje, riremos. É possível encontrar valores mais nobres do que o lucro? Que idéia! Paul McCartney, com sua cara de bom moço, como é possível que ele tenha levado tantas garotas a desobedecer aos pais? Metido naquela gravata apertada, ele foi causa de uma revolução nos costumes?

No entanto, foi esse tempo cheio de uma fé que podemos apontar como infantil que, com a coragem de cortar na própria carne, enterrou em definitivo os códigos rígidos das décadas anteriores, o patriarcalismo, o chauvinismo, o fascismo nosso de cada dia. A história estabelece como fim da Antigüidade o ano de 476, quando as hordas bárbaras saquearam Roma. Por que não dizer que a Modernidade terminou em 1968, quando as hordas de estudantes tomaram as ruas de Paris, Praga e, por que não, Rio de Janeiro?

Quanto a você, que está quase se entregando às lágrimas, só de ver as imagens dos Beatles e do Pink Floyd, relembrando as sublevações políticas, lamentando a mesquinharia deste nosso início de século, que posso dizer? A luta não é a mesma, porque o inimigo também mudou. Foi derrubado por nossos pais, em cujo lugar você gostaria de estar, embora os menospreze dia sim, dia não. Resta como verdade que ainda temos muita guerra a lutar, com as armas que nos são disponíveis. Veja só que triste ironia: tomar para si os valores do passado faz de você nada mais do que uma ponta-de-lança do conservadorismo.

* * *

PS: Esta postagem não significa que abandonei a série sobre Estética e a explicação no mundo. É só uma pausa.

Comentários

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11 Comentários »

2007-08-09 23:44:56

Eu já quis ter vivido nos anos 60, na Inglaterra claro, só para ver de perto os shows dos mestres do rock, mas só por isso. Para mulheres como eu aqueles deviam ser tempos difíceis, eu não estareia afim de me estressar por não querer casar, por não ser virgem, por querer estudar arte, etc. Seria foda também porque talvez, assim como hoje, eu não botaria fé na revolução… nem pelo amor nem pela guerra. Revolução se faz de outro jeito, talvez seja um movimento pequeno que somado ao de outras pessoas se torne grande. Mas as pessoas não são unidas, não são organizadas, cada um quer saber de si mesmo e pronto - isso é bem atual, aliás. Antes da década de 60 houve Grécia e o Helenismo! Os etruscos e a tecnologia dos arcos - feitos com pedras encaixadas! Roma e seu exército - e sua loucura (acho que eram aqueles copinhos de chumbo que deixava os Césares doidões). Sem falar, antes disso, na tecnologia das pirâmides, do vidro, da gravura na china! E a prensa de Gutemberg depois! Galileu, Leonardo, tantas coisas que deixam os anos 60 no chinelo. A Escola de Sagres, sem falar nos Templários né eheheh. Que mais? Tantas maravilhas, tanta loucura dessa humanidade, Marco Polo, os hunos… tudo nos foi entregue de mãos beijadas… e o que nós conseguimos fazer? Nada assim de tão especial. Fora algumas almas iluminadas como Einstein, por exemplo, parece que espíritos revolucionários pararam de encarnar por aqui nesse planetinha judiado. Obrigada pelo comentário lá no post da Lua, um beijo! Ave César! heheh :P

2007-08-09 23:47:06

hey, descurpe os erros de digitação, tô ouvindo fado e bebendo água, acho q é isso, bjooo

 
2007-08-14 16:54:54

Pô, mas não são dez anos de diferença, convenhamos… Entre Péricles e Alexandre, foi quase um século. Entre Alexandre e César, foram trezentos anos. Entre Love Me Do e Astronomy Domine, cinco.

2007-08-14 18:21:49

pois é pois é, esqueci desse detalhe, mas tudo bem, realmente. mas são 10 anos, 5 anos, cheios de resquícios desses outros 300. realmente o avanço é mínimo e até tedioso se for visto a partir dessa comparação… agora, vale pensar até q ponto beatles e floyd foram beber nas fontes milenares: pompéia é um exemplo, apropriação de sons/filosofias indianos é outro. bjooo

(Comments wont nest below this level)
 
 
 
2007-08-09 23:53:20

hmmm, esqueci de falar do vídeos, nunca gostei de beatles, qto ao syd ele até q durou bastante, morreu no ano passado né? tenho um cd dele aqui ótimo. ele era a alma do floyd. depois ficou waters, depois q ele saiu não restou muita coisa… só amenidades.

 
2007-08-10 01:43:30

Palavras sensíveis, muito sensíveis. Gostei de lê-las, todas, mesmo.

O engraçado é que, comigo funciona diferente. Ao mesmo tempo que não me apego a um passado que não foi meu, a sociedade moderna não me agrada. Me considero marginalizada, mas estou confortável nessa posição.

Se temos contra o que lutar? Claro que temos. Mas a juventude de hoje é acomodada e preguiçosa. É muito mais fácil olhar pra trás e dizer “que nasceu na época errada” do que tentar mudar o próprio tempo.

Acho que muito além de uma questão de “atitude” (palavra muito usada pelos jovens hoje), querer mudar o hoje deveria ser mesmo é uma questão de comportamento mesmo, de valores, coisa que, claro, não existe (mais).

Eu não suspiro pelo passado.. Suspiro pelo porvir. Me é o suficiente.

Beijos.

 
2007-08-10 14:55:53

Syd Barret saiu surtado faz tempoe sua vida após o surto foide um ser fossilizado, jargão psi.
Vou escrever mais depois.

Vivi plenamente todas as décadas de 52 a 07. Somos nós os que se devem renovar. Não vejo incompatibilidade entre 68 e Libelu anos 70. Beatles e Led Zep. Gosto de rock. Samba.

Minha primeira amiga de dorm na USC dizia que me renovo a cada primavera. Sei lá.

Beijos,

 
2007-08-10 15:39:19

Gostei do texto. Tenho alguns pontos de vista em comum com o senhor, mas nunca tomei parte nessa admiração meio passiva pela geração de 1960. Chego a achá-la um tanto ridícula e, como o senhor sagazmente demonstrou, também acredito que ela deve ser encarada como um indício de algo mais fundo - um sintoma, talvez. A nossa geração já nasceu desiludida e futilizada. É triste constatar isso, mas ao mesmo tempo confortável. Não tenho um pingo de fé em meus contemporâneos como um todo, embora haja bastantes exceções consoladoras. Não sei como se comportará esta geração ao tomar as rédeas do mundo. Preocupo-me, porém, com uma coisa: a apatia política.

Abraços.

2007-08-14 16:57:00

Donato, este é um blog agnóstico. Dizem que o Senhor está no céu, mas, como aqui não cremos nem mesmo nisso, melhor não mencioná-lo.

 
 
2007-08-14 08:45:10

o ser humano só se desapega daquilo que não inventaram; o discurso de querer viver em uma época remota para mim é balela.

2007-08-14 16:57:42

Ahá! Conheço essa estratégia… Quer divulgar seu blog mas não tem saco de ler o texto inteiro e comenta a primeira frase, hein? Tudo bem, entro no seu blog mesmo assim.

 
 
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