De como a estética explica o mundo. Parte II: Política

Postado em July 29, 2007
Categoria Arte, Filosofia, Política, Viagem |

 Missão ingrata, essa em que me meti. Dizer que, até mesmo na política, a dimensão estetizante da mente humana tem um papel fundamental! E, mais grave ainda, dando como exemplo mais visitas a igrejas italianas, como na primeira parte da série. Mas não posso voltar atrás na opinião, nem na determinação. Fica, então, decretado que, sim, mesmo no universo sanguinolento e fétido da política, talhado à perfeição para a pena de Maquiavel, as funções de abstração e representação que carregamos na cabeça desempenham um papel preponderante. Pretendo demonstrá-lo, mas não sem, no meio do caminho, dar umas alfinetadas na Itália.

O último texto narra a visita a uma graciosa, embora desconhecida, igreja de Turim. Mas bem poderia ter sido a história de uma igreja de São Cosme e Damião, perdida numa praça de Gênova, minúscula, medieval, escura, com suas colunas cilíndricas pintadas em listras verdes e brancas, as paredes de pedra úmida e, como toque final, dois garotos sentados eu seus degraus a fazer tocar um hip-hop de tintas árabes, para toda a cidade ouvir. Cada um desses templos, pela forma como é construído, certamente causava sobre os fiéis seus contemporâneos um impacto bem peculiar, e compunha em sua percepção uma idéia de divino inseparável de todas as demais particularidades do tempo, e que não podemos compreender senão através de reconstituições voluntariosas, mas inanimadas.

A particularidade que queremos atacar neste texto, como já anunciado, é a boa e velha política, aquele tal assunto interminável. E, se na Parte I fiz o elogio às igrejas obscuras, terei de usar, como exemplo da Parte II, a crítica aos templos nababescos. O primeiro deles é o mais antigo: o Duomo de Pisa, do século XII, cuja fama é ofuscada pelo seu campanário inclinado, não à toa um dos símbolos maiores da Itália, um país em que as coisas têm mesmo uma certa dificuldade em se manter retas. O segundo é a fantástica basílica Santa Maria dei Fiori, em Florença, cuja arquitetura tem o dedo de alguns rapazes muito talentosos, quais sejam, Giotto, Bruneleschi, Michelangelo. Mas que não pode ser devidamente contemplada, porque os italianos, esses reis da elegância, fizeram questão de cercá-la e enfeitá-la com avenidas engarrafadas, lojas de bugigangas e o que mais puder favorecer o desconforto, em detrimento da arte e de quem tem prazer em sorver a grandeza que a humanidade um dia teve. A terceira e, prometo, última, é nada menos do que a Basílica de São Pedro, que, na condição de sede do papado, não fica na Itália, mas, pela papelada espalhada pelo chão, bem se vê qual é o povo que a administra. A partir dessas três construções de fama bem merecida, posso ficar livre para falar do que mais puder me servir para fortalecer meu ponto.

A catedral de Pisa é o exemplo mais luminoso do estilo românico, aquele verdadeiro balaio de gatos que serve para incluir qualquer coisa mais elaborada feita antes do período gótico. As igrejas românicas, de todos os formatos e cores, costumam ter como característica comum o fato de serem bem menores do que suas sucessoras imponentes do século XIII. O domo de Pisa é uma exceção. Titânica e imponente, faria desaparecer sua torre, pequena mas muito bonita, não fosse a teimosia desta última em se manter inclinada. Não resta dúvida de que o príncipe, duque, cardeal ou seja lá qual for o título, que mandou erigir esse monumento (em vez de montar um forte exército para defender a cidade) não era qualquer fidalgo sem meios. A fachada é tomada por esculturas de santos e pelos padrões de mármore trabalhados com esmero, e vale talvez mais a pena do que a visita ao interior, que, por sinal, custa dois suados euros.

A basílica florentina dispensa apresentações. Sua cúpula magnífica faz o indivíduo se sentir desprezível, para não dizer nulo. Pode ser vista de quase qualquer ponto dessa cidade quase sinônima do Renascimento, a sede do poder dos Medicis e dos Pitti, berço de gênios que praticamente inauguraram a era moderna. A catedral foi construída, como todas as suas irmãs, ao longo de muitos séculos, enquanto os poderosos da cidade, da república à ditadura, estendiam o poder de suas famílias sobre as vizinhas, como Siena e Pisa. O palácio e a galeria Uffizi (administração, digamos assim), o palácio Pitti e outros monumentos da cidade datam do mesmo período.

Quanto à Basílica de São Pedro, com sua praça homônima e o túmulo suposto do dito cujo santo, é a obra-prima do barroco italiano, e seu ponto alto é o altar de colunas retorcidas, assinado, naturalmente, por Bernini. (Roma Bernini ha fatta, ensina o dito.) São espaços intermináveis, calculados para as multidões, aglomerações humanas ainda maiores do que essas que, ainda hoje, tomam a praça São Pedro à espera das Urbi et Orbi da vida. Muito mais do que o lar dos papas, hoje reduzido ao Vaticano (uma meia-dúzia de basílicas, um jardim enorme, um conjunto inigualável de museus onde o visitante é tratado como um boi na fila do abatedouro), a catedral foi, durante séculos, o coração dos chamados “Estados papais”. Maiores ou menores, através da história, esses Estados tomaram sempre um naco importante da península italiana e comandaram exércitos que mereciam o respeito dos demais reinos europeus (mas nem sempre). Os papas eram fortes, ricos e poderosos, e sua principal igreja não permite nenhuma dúvida a respeito.

Chega de digressões! Vamos à questão: o que têm em comum os três templos, além da beleza, do fausto e das dimensões? Por uma, buscam todas expressar a grandiosidade de uma religião que, imaginava-se, estava alçada acima de todos os valores seculares. (Basta comparar com as outras igrejas que descrevi, as de Turim e Gênova.) Por outra, elas ajudam a entender como, no fundo, não há poder religioso: todo poder é secular, ainda que exercido por uma autoridade espiritual e atuando sobre o contato dos súditos e fiéis com a transcendência, essa tal. Finalmente, podemos ver que tanto um poder quanto o outro se manifestam sobre a realidade humana, em seu quotidiano como em sua mente, através de uma apresentação e de impressões que, como sabemos, dialogam com nosso incensado senso estético.

O que chegou até nós, da disputa entre as cidades européias, e em particular as italianas, pela riqueza de suas igrejas, pela altura de suas torres, pelo brilho do ouro, das esculturas e dos afrescos? Apenas a imagem de um desenvolvimento assombroso das artes e da arquitetura, que contemplamos e estudamos com admiração e uma certa nostalgia. Mas, enquanto os operários miseráveis empilhavam, ao custo de não poucas vidas, os blocos de mármore de Carrara, o esforço tinha um significado que ia além do zelo religioso. Os imensos espaços em forma de cruz, com curvaturas perfeitas para amplificar o som das homilias e dos corais, as colunas sólidas e intermináveis, os círios grossos como árvores, convidam menos ao contato com o divino (que, segundo Sto. Agostinho, é feito olhando para dentro) do que à celebração das glórias dos vivos, dos poderosos, dos príncipes, do Estado.

Mas quando falamos em política, é normal formarmos na mente a figura de um mundo distante, onde se embatem partidos e caciques, em busca de uma entidade algo quimérica a que damos o nome retumbante de “poder”. Os retratos que nos vêm são daqueles engravatados sem escrúpulos, revolucionários ingênuos ou, de um ponto-de-vista mais histórico, nobres dados a intrigas na corte de reis corruptos ou guerreiros. Com isso, deixamos de considerar que a política nada mais é, na origem, do que a concretização, sobre a Terra empírica, do fato de que nós, seres humanos, não vivemos isolados. A partir do momento em que se formam coletivos e comunidades, a dimensão de nossa vida se torna política. Ainda que a rejeitemos, como sugeriu Brecht em um de seus tantos poemas políticos. Em diferentes estados da organização da vida coletiva do homem, sua realidade política tomará diferentes formatos. Nos primeiros livros da República de Platão, talvez o mais antigo texto político que chegou a nós, descreve-se com minúcia a formação de uma cidade. É fantástico, e nos serve perfeitamente como exemplo.

Assim como existe uma psicologia do coletivo, para não dizer das massas, também faz todo sentido falar em senso estético coletivo. Afinal, é, por assim dizer, um fenômeno psicológico. Cada momento político desagua em uma configuração estética que lhe é correspondente, conforme a visão de mundo que cada geração constrói para si mesma e as seguintes. Observe como, ao longo da história, as ondulações do equilíbrio de poder nas sociedades sempre implicaram, simultaneamente, variações na indumentária, na arquitetura, nos estilos artísticos e no chamado “bom falar”. Alguns momentos são simbólicos: a corte de Luís XIV, em que gravitavam Molière, Poussin e Lully, entre tantos outros; o modo de vida dos movimentos totalitários, sobretudo o nazismo, com sua arte rígida e seus códigos de conduta, ao qual se contrapunham tantos movimentos libertários, abstratos e sedentos de liberdade; a bossa-nova dos tempos de Juscelino, auge e início da derrocada do Brasil republicano; o realismo socialista, misto de arte e propaganda política.

A maneira como configuramos o mundo é tão representativa, no sentido em que usei a palavra na Parte I, quanto a forma como estabelecemos nossa espiritualidade. E, dentro desse mundo que nos representamos, uma esfera quase inescapável é a da política, onde nossas sensibilidades e racionalidades se entrecruzam para formar a totalidade de um universo sincrônico. Nessa mesma grande massa de opiniões e ideais insere-se a rejeição que muitas vezes manifestamos em relação à política: ela também ajuda a configurar a realidade política que, em seguida, iremos rejeitar, amargos e desiludidos, em um círculo vicioso que perpetua a própria situação de momento que um dia quisemos ignorar. Mas, naturalmente, nem mesmo esse ciclo se perpetua indefinidamente: com as condições, as idéias e as vontades, muda-se a realidade.

E, se não existe poder espiritual, é por um motivo muito simples: o poder se exerce sobre vidas, não sobre espíritos, ainda que o espírito seja um meio de influência de primeira grandeza para atingir as vidas. O espírito, como sede principal da nossa capacidade de abstração e representação, serve aos que exercem o poder como centro nervoso da dominação. Pode ser presidente, ditador, príncipe ou cardeal. Um palácio existe para fechar o círculo do poder sobre aqueles que devem se submeter a ele.

De tal maneira que, quando compreendemos o quanto todos esses conceitos, que aplicamos ao mundo que nos cerca, se resumem em manifestações de nossa própria capacidade de abstração e representação, podemos estimar, igualmente, o quanto nosso contexto depende da postura que tomamos em relação a ele. Ou seja, mesmo que nos sintamos dominados pelo mundo exterior, temos algum papel em sua formação e, por conseguinte, em sua transformação. É algo a se pensar.

*

Se não estiverem cansados demais, a série “A estética explica o mundo” continuará nas próximas postagens, mas não me arrisco a dizer com qual tema.

Comentários

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2 Comentários »

2007-08-03 15:42:28

Ótimo texto. Só faltaram os egípcios e o totalitarismo. Mas é que eu sou tarada pelos egícios sabe…

 
2007-08-06 23:32:22

O totalitarismo está no texto. Quanto aos egípcios, ainda estou esperando que algum mecenas me pague uma viagem para Alexandria…

 
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