De como a estética explica o mundo. Parte I: Teologia

Postado em July 15, 2007
Categoria Arte, Filosofia, Viagem | 8 comentários

 Acordamos cedo em Turim; às oito, já estávamos na rua, descendo em direção ao centro. Como sabíamos que nada estaria aberto, tomamos a única decisão possível. Apenas circular, quase sem rumo, por entre as varandas e sacadas. Foi uma atitude sábia. As avenidas são agradáveis, a arquitetura é bela, a cidade vale a pena. Não demoramos a nos deparar com uma igreja; é claro, estamos na Itália. A fachada é barroca, mármore branco em colunas coríntias e volutas harmoniosas. Não é uma catedral famosa, mas temos tempo de sobra. Entramos.

Está vazia. Apenas os compridos bancos de madeira fazem suas orações, voltadas para um altar enfeitado de candelabros dourados, atrás do qual agoniza um Cristo Crucificado de pedra-sabão. É uma escultura dessas que só existem na Itália, retorcida, detalhada, cada ferida aberta, cada lágrima que escorre, executada com esmero. A despeito das cores claras, a atmosfera é morna e umbrosa como se espera de um local de recolhimento. Mas não chega a ser escura, como nas igrejas medievais. Mesmo que não houvesse a luz vermelha acesa, seria possível identificar um ponto em que o mundo sai do eixo e volta os olhos para si mesmo.

Sou relapso, não anotei o nome do templo. Não é, como eu disse, a igreja mais famosa de Turim; não é a Basílica de Superga, pendurada entre os pinheiros dos Alpes, nem a capela que abriga o famigerado Santo Sudário. Posso até acabar descobrindo que se trata de uma igreja anônima, única no mundo, ou a igreja do “santo desconhecido”. Pouco importa. Ela suscitou em mim pensamentos que me incentivaram a dar início a esta reflexão.

Pois então, a estética explica o mundo? E eu, que pensei que o universo fosse inapreensível e inexplicável! Se somos prisioneiros do tempo e do espaço, se estamos abaixo dessas dimensões, isto é, dentro delas, e reféns de nossas categorias tão parcas, como podemos dar ordem e sentido à realidade? Se ela não cabe nas fronteiras da nossa percepção! Como discorrer, além de tempo e espaço, sobre aquilo que engloba e é berço do que ousamos chamar de dimensões?

Mas é justamente o que vimos fazendo há milênios; é nisso que aplicamos o que temos de mais poderoso, sublime e trágico: nossa imaginação insaciável e rebelde, que se desdobra em razão e arte, mas está, resistente e imaterial que seja, sempre fadada ao insucesso. Nós, com o impulso fabuloso da vontade, e nossas teologias, físicas, astronomias, ontologias e poesias, alcançando com os braços os mistérios das esferas, mas morrendo no caminho por falta de oxigênio, para semear, no chão árido da existência que nos é dado sentir, as sementes do engenho, da indústria e dos artifícios.

É impossível esconder, nesses parágrafos, o eco do pensamento de Kant, o mais sensato dos gênios, que derrubou as torres babélicas da metafísica e da teologia pedantes, aquelas que ambicionavam o absoluto, na tentativa de desenhar o rosto de Deus e fundi-lo a nosso crânio. É verdade. Immanuel Kant arrancou aos doutos a prerrogativa de enquadrar o mundo em fórmulas e silogismos, no desespero de saber o que somos e o que podemos saber.

Mas, em seu lugar, o sábio alemão pergunta: o que devo fazer? E assenta a metafísica sobre as bases da moral (não aquela dos colégios de padre, bem entendido). Kant não era nenhum ingênuo. Sabia que a humanidade não se contenta em viver. Somos uma espécie que precisa ir além de si mesma. Somos a espécie que reconhece a beleza e conhece o horror. “Há muitas coisas maravilhosas sobre a Terra, mas, de todas elas, nenhuma é mais maravilhosa do que o homem”, dizem os versos de Sófocles, na voz do coro, em Antígona. Mas a palavra grega (dêinon) que se traduz por “maravilhoso” também se pode traduzir por “terrível” ou “assustador”. O homem é maravilhoso e terrível: nada menos humano do que a passividade bovina.

O que nos leva para além de nós mesmos, e com isso nos concede nossa humanidade, é o funcionamento único da nossa mente, capaz de abstrair (árvore, em vez de “esta árvore”), representar (uma figura de mulher, e não uma mancha de tinta na parede da caverna) e, principalmente, revirar-se sobre si mesma como se para se olhar de fora (ou seja, refletir). É graças a esse detalhe assustador que nossos instintos são mais do que instintos: nossa agressividade é guerra, nossa libido é paixão, nosso sonho é arte, nossa dúvida é questão. E é por isso que a natureza humana é indeterminável; nossa história e nosso cotidiano são coordenados há tantos séculos pela guerra, pela paixão, pela arte, pelas questões, que já perdeu a importância o que há de agressividade, libido, sonho e dúvida por baixo. Seja o que for a nossa natureza, ela é aquilo que, em nós, não é particularmente humano, e por isso não serve para definir a dita “natureza humana”.

O mundo que queremos explicar de tantas maneiras diferentes, pela ciência, pela religião, pela arte, tem sua existência independente de nós e de como o vemos. Quer dizer, estou convencido de que deve ter; como eu poderia afirmar? Como quer que seja a existência que tem esse mundo, nós só acedemos a ele através de nossa própria mente, essa que abstrai, reflete e representa. “Não há nada em nossa inteligência que não passe antes pela percepção”, sentenciou o velho Aristóteles, com que cerram fileiras os empíricos britânicos: Locke, Hume, Hutcheson. Ao que poderia acrescentar, num movimento crítico, Leibniz: “A não ser a própria inteligência”. E Merleau-Ponty: “e a não ser a própria percepção”.

Nossos sentidos, nossa percepção, sorvem o mundo com o apetite de um Pantagruel. O que são os sinais que recebemos do exterior? Luzes, freqüências de vibrações, partículas, raios? Podem ser o que forem, o fato é que, dentro de nossa mente, são digeridos e transformados em imagens, idéias, palavras. E nós, terríveis e maravilhosos, só podemos nadar nesse mar, entre as ondas e os ventos das imagens, idéias, palavras. É terrível, é fascinante, é inescapável: toda nossa vida, com nossa ciência e nossa política, se encerra no universo restrito de um mundo que vai além do que podemos decifrar.

É nesse sentido que invoco o espírito estético que explicará, de seu jeito bem particular, o mundo. Não me refiro à estética que, diante de formas harmoniosas, as julgará belas, nem aquela que, perturbada, exclamará: é sublime. Penso no espírito intrinsecamente estético do ser humano, daquilo que une o belo, o sublime e todos os demais conceitos ligados à idéia de arte. É a capacidade que temos de manipular esse estranho universo de nossas percepções, abstrações e representações; de retorcê-lo, esquadrinhá-lo, atravessar heroicamente as sinuosidades da existência real, ou seja, os buracos de nosso poder de traduzir o mundo externo, tão limitado que é. A estética baila por suas falhas e seu incompreensível. Explica o mundo porque não dá explicações, não desenvolve paradigmas e dogmas, como a ciência e a tecnologia, para ordenar o que já é percebido.

Finalmente, voltemos à igreja de Turim. A solidez das colunas, a claridade da cúpula, o alvor do linho no altar, como contrasta, tudo isso, com a cidade! O templo, construído em louvor a Deus, traduz a sensação que o homem tem do sagrado. Pisar naquele espaço é deixar para trás a crueza das ruas, o estridor da economia, a dimensão claustrofóbica das moradias. No século XVII, quando foi construída, um grande sacrifício foi realizado para colocar ali aquela estrutura em pedras nobres, com obras de arte e um capricho detalhista, que um arquiteto da época não dispensaria a qualquer construção.

Era um tempo de soldados, cavalos e peste, invernos rigorosos com lenha racionada, comida conservada no sal. Não havia água corrente, nem grandes distrações para uma população majoritariamente iletrada. Música só se produzia quando alguém tomava um instrumento e o fazia produzir sons; alguém que tivesse estudado em conservatório, o que era raro. Era um dia-a-dia duro, aquele ao qual se contrapôs a pequena igreja, com suas liturgias, o eco de suas paredes e o brilho de suas velas.

Digo isso para explicitar como, dentro de um ambiente como esse, o sagrado se constrói sozinho. A questão da existência ou inexistência de Deus se torna irrelevante. A divindade prescinde dos deuses. Estará igualmente presente naquele espaço, ainda que o mais rígido materialismo tenha a razão. Basta, para sentir-se um mortal perante a imortalidade, um pouco de senso estético. É como se aquela sólida construção flutuasse entre a Terra e os Céus, em vez de se estar fixa sobre o chão do Piemonte.

Quando já íamos saindo, nossa marcha foi interrompida. Cheguei a acreditar, mas não era um anjo soprando a trombeta do Apocalipse. Era um músico que, do alto do mezanino, praticava sua arte, como todo dia, de calças jeans e camiseta branca. Ao órgão, executava as primeiras notas de uma peça de Bach. Ainda assim, por efeito dos sons que vibravam pelos tubos, as colunas dobravam-se, como em reverência. Os bancos se ajoelharam, o batistério baixou os olhos. Por um instante, senti como se Deus, Ele mesmo, tivesse irrompido pela porta, reclamando sua morada. Fiquei lívido. Saí do albergue para fazer turismo, e de repente estava em contato com o inominável. Naquele instante, quase me converti. Parece-me que, se o arquiteto daquela igreja ajuda a explicar a noção de sagrado, Bach vai além. Sedicioso, armado de seus cânones e fugas, instila na mais inocente das mentes a certeza do divino. Maravilhosa, terrível, a estética.

*

Espero dar continuidade a essa reflexão com a parte II: política. Ou “De como todo poder é secular.”

PS: Tentei colocar todos os links em português, mas houve alguns em que não foi possível, seja porque não havia link algum, seja porque estava dizendo bobagem, seja porque estava muito mal escrito.

Comentários

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8 Comentários »

2007-07-15 17:03:13

Caro Paulo, mais um texto magistral. Difícil questão, a da estética.

Você tem noção de estética: mas a um crente será que isso não seria apenas verdade? Não digo que ele não tenha prazer com aquilo, mas julgo ser um prazer um pouco diferente do teu — ele dificilmente pensará em estética ao invés de Deus: vc leu Kant, rapaz. Há uma distinção que se faz entre arte e moral: “poder” e “dever”, respectivamente. Quando se crê, não haveria arte, sim verdade. É o que dizem e eu sou levado a acreditar.

Não que um católico não possa ver poesia na Bíblia como eu vejo. Conheço alguns que vêem. Penso que esse lhe seria, no entanto, um momento “desmoralizante”. O romantismo impôs à arte uma necessidade de “reflexão”, o que é perigoso e não é bem verdade. Ontem voltei ao Croce, ele diz: “a obra poética é criação e não reflexão, monumento e não documento”.

Considerando que você foi _sincero_ neste post, o que seria essa tua sensação? Ascese ou estética? Li por aí, não sei onde, que arte e ascese acontecem na mesma parte do cérebro. Mas uma coisa é fé, a outra o contrário disso.

Como disse, difícil a questão.

2007-07-17 11:52:28

Diego,

Acho que o “espírito estético” que eu mencionei prescinde da formulação de uma teoria estética. É uma estrutura da mente humana, presente em todo mundo, o filósofo, o crente, o burguês, o operário, o aristocrata, o político e assim por diante. A própria noção de verdade que o crente tem, e o cientista idem, ainda que em situações diferentes, tem lá sua carga estética. A tal ponto que mesmo eu, que não sou particularmente religioso, posso ter um sentimento do sagrado tão forte quanto o do fiel, posso chegar a ponto de me converter; aliás, até poderia ter acontecido, quem sabe? Mas me parece que isso acontece muito mais pela “ativação” de um princípio de contemplação estética do meu subconsciente do que propriamente por um contato com entidades de uma realidade superior.

 
 
Vinícius
2007-07-15 21:17:01

Eu diria que a maior prova do poder estético é o fato de eu entender muito melhor o que você quer dizer, Paulo, à medida que você mesmo se “afasta” de seu objeto argumentativo. Você escreve bem, de forma que sua descrição da igreja e de suas sensações atingiu minha mente muito mais eficientemente do que sua argumentação – por mais que esta também tenha sido bem feita.

2007-07-17 11:54:55

Acho que o objetivo era mais ou menos esse. Suscitar uma reflexão teórica a partir de um objeto palpável, como a igreja. Quem quiser ler e refletir a partir da argumentação, ótimo; quem preferir fazê-lo a partir do exemplo, ótimo também. O importante é descrever a parábola, sair do concreto para o abstrato e voltar. Senão, é como o balão de hidrogênio que vai subindo até estourar.

 
 
2007-07-17 08:41:24

O Vinícius disse: a estética é tão supervalorizada que ler um texto “feio” é tarefa árdua, o que, claro, não é o caso deste seu. Espero a parte II.

Abraço.

 
2007-07-29 13:16:37

Olá, bom demais este seu espaço. Tudo muito aguçado, discernindo, parabens. Estarei indicando nas minhas páginas.
Um bom dia de domingo com tudo do bom e do melhor procê.
Beijabrações, linda semana & tataritaritatá!!!

 
2007-08-08 19:26:23

[...] Alias, não farei nada senão tecer comentários despretensiosos e ébrios sobre as partes I e II do De como a estética explica o mundo (a terceira e, suponho, última ainda não foi [...]

 
João Renato Marino
2008-03-08 19:38:24

Nem sei como cheguei aqui.
Você não imagina como alargou minha mente.
Obrigado.
JR.

 
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