Reduzidos ao mínimo

Postado em July 3, 2007
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 Esta deveria ser a primeira reflexão sobre minha viagem à Itália. Mas, por força das circunstâncias, tive que inverter a ordem das prioridades. Em vez dos elogios e, sobretudo, críticas à península, reservo o dia para uma elegia fúnebre. Neste texto, pois, triste, triste, deponho minha coroa de flores perante o mausoléu de NoMínimo.

É um truísmo, creio, dizer que foi o que de melhor se produziu no jornalismo online brasileiro. Quanto a mim, acompanhei-o desde a origem, quando tinha o singelo nome “no.” (que se deveria ler “no ponto”), e já tive a dor de chorar sobre os despojos do site original. Ressuscitado em 2002, como NoMínimo, sobreviveu por mais cinco anos. Tudo acabado, baile encerrado, eis que acaba de expirar mais uma vez.

Nesse meio-tempo, alguns dos melhores nomes de nossa imprensa deram o ar de sua graça, somando-se a uma equipe fixa já bastante respeitável. Zuenir Ventura, Marcos Sá Corrêa, Mario Sergio Conti, Tutty Vasquez e um caminhão de nomes de peso. O Brasil, tão carente, precisava de bom jornalismo, algo que só aparece em espasmos desde a derrocada do grande JB, aquele que durou até o final dos anos 80. Por essas e outras, torci muito pelo sucesso da empreitada, já sabendo que os produtos culturais de qualidade não duram grande coisa no nosso país inculto e belo.

Confesso que não digeri muito bem a transformação de todas as páginas em blogs. Mas era uma iniciativa ousada, e merecia apoio nem que fosse só para incentivar as iniciativas ousadas. E, mesmo se gostasse mais de umas do que de outras, lia sempre todas as colunas, à exceção de algumas temáticas que não me interessam. Seus autores, não sei onde vão parar agora, mas farão falta como corpo uno.

Estranhamente, parecia um sucesso enorme. Muitíssimos leitores, assinantes, comentários. As matérias tinham repercussão, não foram poucos os furos e as reportagens de qualidade. A primeira de que me lembro falava sobre a corrupção no Botafogo - o time, não o bairro. Isso foi em 2000 ou 2001, ainda nos tempos de “no ponto”, antes mesmo do clube da estrela solitária cair nas mãos do presidente do Ibope. Do ponto de vista comercial, financeiro, empresarial, que é o único que parece contar, NoMínimo foi um fracasso. Poucos anunciantes, ninguém interessado em hospedar as páginas, um desprezo absoluto pela qualidade jornalística e de texto. Não há lugar para isso no Brasil. Portanto, fora, NoMínimo!

E, como não poderia deixar de ser em nosso país de invejosos, logo apareceram os abutres. Os editores publicaram um parágrafo, há coisa de um mês, alertando sobre a situação periclitante em que se via o site. Era um pedido de socorro. Mas, logo no dia seguinte, tropecei sobre um artigo infeliz, assinado pelo editor de uma outra página cultural, alguém que não perdeu tempo. Alfinetou sem misericórdia os vizinhos desditosos. Com uma ironia indelicada, escarneceu da incapacidade financeira dos bravos jornalistas. Aproveitando o gancho, vangloriou-se da rentabilidade de seu próprio empreendimento. Em resumo, uma atitude deplorável.

Para piorar, se NoMínimo se poderia resumir como uma companhia que remunerava gente muito qualificada para falar de coisas que conhecem bem, a página do outro sujeito escolheu o caminho oposto: não paga para que gente sem nenhuma qualificação dê palpite sobre coisas de que não têm idéia. Somada a uma auto-promoção constante e um merchandising onipresente, é claro que a estratégia não poderia falhar. É a cara do Brasil. O competente soterrado pela estupidez soberana; e o esperto, que sabe tirar proveito do vulgo, pisando sobre seu cadáver, a gargalhar e faturar.

Acendo uma vela, esperando a intervenção de algum empresário mais sagaz e interessado pela massa cinzenta, para que os textos de NoMínimo voltem a brotar em minha caixa de e-mails. Quero evitar o trocadilho que escolhi para o título, mas a verdade é que me sinto reduzido ao mínimo nas opções de jornalismo profissional via net. E já que não posso comprar os jornais brasileiros na banca, terei de me contentar com os sites que reproduzem o formato dos meios impressos, por melhores que sejam, e com o Trópico, antes que esse também saia do ar.

Comentários

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2 Comentários »

2007-07-04 08:27:10

[…] Leiam isso, e mais isso. […]

 
2007-07-04 18:57:47

Muito bem posto. E valeu por apresentar o Trópico, não conhecia.

 
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