Na segunda, como farsa

Postado em June 10, 2007
Categoria Política |

Normalmente, eu diria que é coisa de gente preguiçosa publicar um texto que é metade citação. Uma citação apenas, e enorme? Pior ainda. Mas, desta vez, caí na tentação, um pouco por falta de tempo, claro, mas sobretudo porque não faz sentido eu perder meu tempo formulando idéias se alguém muito mais qualificado do que eu já disse tudo que havia a ser dito, e muito melhor do que eu faria. Sendo assim, abro aspas:

“(…) A decomposição crescente das democracias não se manifesta somente numa ordem material, mas também no fato de que, em grande medida, os próprios povos que vivem sob democracias, ao menos é o caso deste país, não crêem mais tanto no valor do regime em que vivem. Uma vasta parcela da opinião desses países deseja um outro regime.

“Dois fenômenos dominam as democracias. Dois fenômenos antitéticos, que se alimentam reciprocamente: a demagogia sem limites de uns, e as simpatias fascistas de outros, a demagogia de uns servindo de justificativa ao fascismo dos outros, e vice-versa.

“Se, de um lado, os partidos à esquerda se mostram incapazes de governar; se, de outro, os partidos conservadores se põem a desejar uma revolução violenta, é incontestável que um país se vê progressivamente empurrado para a pseudo-solução que representam os regimes totalitários. Não é necessário insistir. Todos podem ver a quê faço alusão.

“Os perigos de contágio, nós já os conhecemos, aqui. E um certo número de traços de regime totalitário estão em germe em nosso país. (…)”

Fecho aspas.

Lendo este trecho, fiquei impressionado com a exposição límpida da forma como se dá o debate político no Brasil. Pelo que tenho lido dos comentários políticos de amigos, conhecidos e gente que nunca vi mais gorda, o conceito de democracia anda um pouco em baixa no país. Não são poucas as pessoas que manifestam uma certa saudade, mesmo que ainda envergonhada, dos tempos da ditadura. Ainda que o saudoso em questão mal tenha vivido esse período.

A desilusão, o desânimo, a raiva e o rancor, esses sentimentos tão acessíveis, fáceis, simplórios, parecem ter atingido índices altíssimos nos corações brasileiros. É verdade que, por um lado, temos um governo teoricamente de esquerda, incapaz de governar e pontilhado de provas de incompetência. E, claro, demagógico, como deixam patentes os discursos do presidente Lula com seu “nunca na história deste país”.

Por outro, que críticas sofre esse governo? Qual é a oposição que se apresenta a ele? Os brasileiros progressistas, racionais, sérios, parecem ter sumido ou desistido do país. Nas ruas, nos fóruns e até nos jornais, as referências de oposição se fazem sempre por adjetivos. Fica difícil entender exatamente qual é o problema, qual foi o erro, quando gente neurótica como os colunistas e blogueiros da Veja (por exemplo) gastam tinta e tempo encontrando qualificativos cada vez mais baixos e menos significativos para o presidente, o governo, o PT e a esquerda em geral.

Que contribuição para o debate tem, por exemplo, o nome “esquerdalha”? Nenhum. É difícil saber a quem se refere, ou qual é sua carga conceitual. Em outras palavras, não quer dizer nada. Não é sério. Faz sentido que seja pronunciado em reuniões de grupos de direita atrasada, mas não em meios de comunicação de grande circulação. É apenas um adjetivo virulento, que faz sucesso porque toca nos instintos mais primários dos que necessidade de um catarse, não de uma solução. Mas a catarse, esquecem-se esses neuróticos, está muito mais acessível para quem governa pelo carisma e a demagogia, como Lula. Não é à toa que ele foi reeleito. Irracionalismo por irracionalismo, o demagógico leva uma vantagem enorme contra o neurótico. Quanto ao futuro, isso ninguém sabe.

Mas acontece que, para elevar um pouco mais o caráter dramático do post, o trecho citado não foi feito para falar do Brasil. O país em questão é a França. A nobre amiga Tina pediu uma análise da eleição que colocou Nicolas Sarkozy no poder por alguém que viva aqui, ou seja, eu. Mas não tenho condições de dizer nada de muito mais profundo do que podemos encontrar em qualquer jornal. Então, resolvi pedir as palavras emprestadas a outrem. Peço desculpas pela indiscrição.

O Partido Socialista francês é, sim, demagógico e incapaz de governar. Tão incapaz que, apesar de ter a faca e o queijo na mão, isto é, uma candidata carismática, jovem e mulher, não foi capaz de criar uma estrutura que levasse “o achado” Ségolène Royal ao poder. Brigas internas, frases de efeito, o escambau. Demagogia e incompetência, como de hábito. O último presidente socialista, François Mitterrand, foi eleito quase por milagre; e o último primeiro-ministro, Lionel Jospin, chegou ao cargo, aí sim, por um milagre incontestável.

Enquanto isso, o tal de Sarkozy, com seu olhar de peixe morto, enfiava a agulha nos pontos precisos da dor francesa. Eles, que acreditam levar o melhor estilo de vida do mundo (precisam viajar mais), sentem-se postos para trás em comparação com os vizinhos além-Mancha e além-Reno. A economia não anda. Ninguém mais quer saber dos cineastas e artistas franceses, nem mesmo o público francês. A criminalidade anda aumentando. E assim por diante.

O povo é capaz de pôr a culpa da situação em qualquer coisa. Menos, naturalmente, na sua falta de interesse pelo trabalho, na burocracia notória, na educação antiquada. Os culpados só podem ser, e isso é evidente, os filhos e netos de imigrantes vindos das ex-colônias. Os “franceses” (leia-se brancos) não têm trabalho, porque o trabalho está na mão dos beurres, “manteigas”, como são chamados os descendentes de árabes na gíria dos subúrbios. Quem haverá de questionar o fato de que talvez sejam eles os únicos interessados em trabalhar?

Sarkozy conhece o povo de seu país, e não tem pudor algum de fazer todas as jogadas em cima de seus medos. Afinal, já sabemos que não é bobo. Ele, que conhece todos os mecanismos da política palaciana, domina também a emoção das massas, uma qualificação fundamental em nossos tempos midiáticos. Nem por isso, claro, será algum ditador. Mas o texto citado aí acima faz parte de Estados democráticos e Estados totalitários, e foi pronunciado por Raymond Aron, pela primeira vez, em caráter de comunicado à Sociedade Francesa de Filosofia. Em 17 de junho de 1939.

Comentários

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5 Comentários »

Vinícius
2007-06-10 20:09:05

O valor democrático é uma ilusão. Tecnicamente, só há um motivo que torna o totalitarismo pior que a tão bem promulgada democracia: a violência inevitável - não conheço governo totalitário que não tenha exercido seu poder de forma não-violenta. Por outro lado, a democracia que o mundo conhece é apenas uma forma menor de violência, visto que implanta incompetentes e corruptos no poder devido à simploriedade reinante das classes populares. Nunca sabemos quem é mais estúpido: o povo que elege ou quem este elege. Portanto, a minoria que quer apenas viver em paz, com um governo limpo e competente, nunca vai ter muita consideração com a democracia. Deviam tirar a obrigatoriedade do voto e excluir as pessoas que fossem analfabetas. Que esperança eu devo ter de pessoas que votam por obrigação e de pessoas que nem mesmo podem ler um texto? Da má-vontade e ignorância nada sai de bom.

2007-06-11 13:34:27

Concordo quanto ao voto obrigatório; como a jabuticaba, é coisa do Brasil. Nenhuma democracia minimamente séria tem algo assim.

Quanto ao resto, bom, o fenômeno totalitário é bastante complexo. Se te interessa, sugiro autores como Hannah Arendt, o próprio Aron, Franz Neumann e Claude Lefort. Dão uma noção bacana de toda essa problemática, para além dos chutes.

 
 
2007-06-11 11:32:44

Democracia está em baixa, sim, não só aqui, mas em todo o mundo. Assim como o tipo de crítica vazia à qual você tão bem se referiu, que não passa mesmo de uma reunião (mal feita) de adjetivos. Texto muito bom, Paulo. Muito bom.

 
2007-06-19 03:14:52

Paulo:

Política não dá IBOPE. O Sarko-Fasho é uma pândega se não fosse séria. Ainda por cima abrir a reunião do G8 bebum, cara!

As manchetes aqui dizem: –Enfim temos uma Europa aliada. O Bush passou a mão na Merker, vai rachar um trago com o Sarko e o Reino Unido é capacho.

Foi triste que agora o UMP varreu nas eleições. O que me desbunda no Brasil é que tudo é por causa do Lula, caramba! Assim como na França les “Arabs sont des voyous” os nordestinos, que ralam no batente e moram nas quebradas são vagabundos/baderneiros também?

Beijos, Jospin não foi milagre, ele era Libelu:P)

2007-06-24 18:44:49

Chamei o Jospin de milagre (do ponto de vista do PS, claro) pela maneira como ele chegou ao poder: o Chirac, eleito, dissolveu o parlamento achando que teria maioria com facilidade. Perdeu, foi forçado a uma coabitação… com o Jospin. Nos Guignols de l’info, durante muito tempo o bordão do Chirac foi “quel con”, referindo-se a si mesmo e dando com a mão na testa. Dizem até que foi graças a esse personagem “simpático” que ele conseguiu se reeleger…

 
 
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