Platão não gosta de nós
Postado em June 6, 2007
Categoria Filosofia, Literatura |
Eu deveria estar escrevendo. Eu deveria estar estudando. Mas, em vez disso, passei os últimos dois ou três dias fuçando os blogs de meus companheiros cá do Breviário. Ótima decisão! Li todo tipo de coisa boa, da poesia à crítica literária (que não ousa dizer seu nome); como disse o Cleber, é gente que se interessa, de tudo que o homem cria, pela literatura.
Sendo assim, estou entre amigos. Confesso minha dificuldade em resistir à sedução dos livros, esses pequenos almoxarifados de pó e ácaros que, quando não estão dormindo nas prateleiras, são capazes de nos transmitir prazer e conhecimento. Não raro, ao mesmo tempo. Basta que a escolha seja sábia; e a leitura, atenta.
É fabuloso, por exemplo, que até hoje possamos ler e representar os versos de Ésquilo. Verdade seja dita, não chegaram até nós nem metade desses ditirambos. Mas o que temos já é milagroso, uma prova de que a riqueza humana é menos efêmera do que podemos temer. Já o que diziam as personagens de Frínico, pai dos grandes trágicos antigos, jamais saberemos. Que deuses invocavam? Que heróis cometiam a falta trágica? Resta torcer por um milagre: que algum novo palimpsesto brote do chão - e isso não vai acontecer.
Como era mesmo, o tal provérbio latino? Ah, sim. Verba volant, scripta manent. As palavras voam, os textos ficam. Se Karl Popper, um epistemólogo, pôde gastar rios de tinta para criticar A República e as Leis de Platão, é porque essas obra-primas chegaram até nós, 23 séculos depois de compostas nos jardins de Academos. É um milagre, que devemos à nossa capacidade de escrever. À literatura, em resumo. Mesmo que os comentadores do século XX cometam deslizes graves de leitura e digam sandices.
Mas, como diz o título, esse mesmo Platão, cuja obra foi salva pelo alfabeto helênico, não gosta de nós. A palavra escrita, que não cansamos de elogiar e louvar, é enganadora e perigosa. Escrevemos e publicamos, achando que, com isso, resguardamos o que temos na cabeça do risco do esquecimento; nossos livros são nossa memória. Platão responde: ora, memória é ter a idéia na cabeça e na ponta da língua, e não perdida em algum volume de difícil acesso, de cuja existência logo esqueceremos.
Um texto, coitado, não debate. As idéias que alguém mete ali ficam petrificadas. Serão absorvidas por um leitor, mas Deus sabe quem será ele! Leitores, há de todo tipo. Hitler, por exemplo, dizem que leu Nietzsche: não entendeu nada. Ou fez que não entendeu, o que é pior ainda. Afinal, o bigodudo já estava morto, não podia defender suas idéias da distorção.
Por outro lado, também há o leitor que entende tão bem o que está escrito, mas tão bem, que consegue apontar todos os erros e colocar um autor em situação difícil. Oralmente, ainda é possível aprender algo, mudar de opinião, fazer pequenas correções, dizer que não se disse o que se disse, e assim por diante. No escrito, vale quanto pesa. No máximo, pode-se rasgar o que foi feito e começar de novo.
Tudo isso, claro, no entender do mais distinto aluno de Sócrates. Se eu trouxe o homem à baila, é porque passei os últimos dias preparando uma exposição oral sobre alguns dos seus mais de quarenta diálogos, ó ironia!, escritos. Não tenho tido, claro, cabeça para pensar em outra coisa. As críticas ao texto, ou discurso escrito, estão no Fedro, por exemplo. São argumentos excelentes para quem não gosta de escrever - ou ler, o que é ainda mais comum.
Já os que torcem o nariz para a arte podem recorrer à República. A pintura, a escultura, a poesia e o teatro são condenados duas vezes: quase no começo e quase no fim da obra. Estão, afinal, afastados da Verdade, do Bom e do Justo por três graus, coisa horrorosa! Teria sido por isso que o jovem Platão, quando travou conhecimento com o velho Sócrates, queimou as suas muitas tragédias, antes que as levassem ao palco? Certamente não seria por falta de público: já vimos que o rapaz tinha talento para os diálogos.
Parece que Platão não gosta mesmo de nós. Sua cidade ideal, comandada por filósofos, baniria irremediavelmente todos os blogs do Breviário. Lamento! Poetas e ratos de biblioteca não têm lugar entre aqueles que contemplam as formas inteligíveis. Mas, para não terminar em tom menor, ainda é possível tirar uma carta da manga e reconciliar o pensador com a poesia. Ao longo do Banquete, um de seus diálogos mais empolgantes, os convivas vão caindo inconscientes, efeito do excesso de bebida ou, em termos platônicos, da intemperança. Ao final, resistem apenas três bravos bebedores: Sócrates, o imbatível; Agatão, o poeta trágico homenageado; e Aristófanes, o poeta cômico, que não desperdiçou a oportunidade de representar o filósofo como alguém que vive com a cabeça nas nuvens.
Vai dizendo Sócrates que um bom poeta deve conseguir escrever, com a mesma facilidade, tragédias e comédias, quando os dois artistas se deixam dominar pelo sono etílico. O filósofo, cujo comércio com as coisas divinas, segundo Platão, o torna inexpugnável, levanta-se, parte e vai cuidar de sua vida. Sóbrio, como é de praxe em quem tem medo de perder a cabeça. E se o que sobra para os que amam a escrita é a ressaca, talvez resida aí mesmo a nossa vantagem.
PS: Por que tantos hyperlinks neste texto? Porque estou aprendendo a usá-los! Normalmente, não gosto. Acho que polui o texto e dificulta a leitura. Mas não resisti, então desculpem o entusiasmo.
Só através da arte o homem se eterniza. E o melhor é que ela nos distancia mesmo da Verdade. A não ser que se tenha fé na obra.
No Breviário, realmente estamos entre amigos!
Muito bom seu texto, sempre!!!! Dá vontade de ler tudo que Platão escreveu porque da forma como vc o descreve parece ser a coisa mais simples e de fácil leitura do mundo… Sabemos bem que é não bem assim, mas valeu pelo excelente texto! Migrei do paralersemolhar e agora foi ficar fuçando os dois cantos! Quanto mais melhor…
Seu texto é sempre muito bom! Dá até vontade de ler Platão!!!!! Vou ficar fã dos dois espaços agora!Sucesso sempre!!!
Excelente… Sobre o hyperlink, ele até tem desvantagens estéticas, mas é o grande diferencial positivo que um blog pode ter. É o que permite que o leitor voe além do texto, instantaneamente.
Mas se o cara voa demais, pode acabar perdendo o fio da meada e nunca mais voltar ao texto.
Ótimo texto, Paulo. Gostei muito da abordagem que fez de Platão.
Quanto a dizer que textos não debatem, bom, acho que depende. Mas entendi perfeitamente o sentido em que você utilizou tal sentença. E entendendo, pensei em Wittgenstein, Machado de Assis e vários outros que, muitas vezes, se contradisseram a fim de corrigir alguma falha dalguma obra predecessora, geralmente fruto de mente imatura - e assim pensando, toda obra será um dia imatura.
Vou alí cuidar da minha febre, um abraço.
A abordagem não é minha, é do Platão. Eu só joguei a lenha na fogueira, hehehe…
Sobre os hyperlinks:
“- Acredita que toda leitura deva ter um princípio e um fim? Antigamente, a narrativa só tinha duas maneiras de terminar: uma vez passadas sua provações, o herói e a heroína se casavam ou morriam. O sentido último a que remetem todas as narrativas comporta duas faces: o que há de continuidade na vida, o que há de inevitável na morte.”
Italo Calvino, em “Se um viajante numa noite de inverno”
Ou seja: não há fio de meada necessário. Afinal, ele é sempre intuído e construído.
Na verdade, eu estava me referindo mais a textos teóricos… as narrativas vão da cabeça do autor e do leitor.
Posso parecer de um relativismo triste e pasteurizado, mas direi que todo texto acaba por ser uma narrativa para o leitor, mesmo que seja uma narrativa conceitual.
Bom, aí já é um pouco abstrato demais pra mim. Me lembra um professor meu, que quando indicava um livro que não ia cair em prova, dizia: “Leia como se fosse um romance”. É mais ou menos a mesma coisa. Mas acho que o sujeito que ler a Fenomenologia do Espírito (por exemplo) como uma narrativa vai perder seu tempo.
tem a música, em algum lugar Platão fala que a música é algo a se respeitar, visto que, diferentemente da pintura, escultura, teatro, não são simulacros da essência… a múscia não imita nada. Você sabe me dizer onde está isso? Li há tanto tempo na faculdade que não sei mais…
República 3 e 10. Antigamente, a música era considerada uma analogia da “harmonia das esferas celestes”, ou seja, do funcionamento do universo e tal. É por isso que a música é aceita por Platão. Como uma forma de contemplação das Formas, pelo seu funcionamento matemático.
É claro que Platão não conhecia o Pink Floyd.
Po, Pink Floyd é tudo, se Platão conhecesse o Waters mudaria sua concepção de todas as coisas heheh
Concordo plenamente, assim como concordo que se o Nietzsche conhecesse Kandinski, reescreveria o Nascimento da Tragédia…
Chegando e adorando o espaço…
Obrigado pela sua visita ao meu blog.
E..V. é muito modesto no seu desejo de epitáfio . Creio que merece muito mais ou muito mais… nada, que é o que eu ambiciono.
Geraldes de Carvalho
Gostei muito dos seus textos. Boa …aproximação- -só me lembrava de uma palavra que creio que não existe : acercação - e horrível– a Platão tão mal compreendido, às vezes por cima.
Um abraço
Geraldes de Carvalho