Independência da obra, morte do autor

Postado em October 15, 2008
Categoria Arte, Literatura |

Seguindo a linha de pensamento do texto do post anterior, tenho buscado em Roland Barthes e em Heidegger um pouco de suporte à uma questão que me incomoda muito: a ligação entre autor e obra, entre artista e arte, sua existência e seus limites.

Em primeiro lugar, acredito na total independência da obra de arte em relação ao seu autor ou em relação à qualquer coisa – ela é de uma forma e será, de acordo com cada leitor, de outra forma diferente, ou de outras formas diferentes, em progressão infinita (sem que esse termo se torne matemático).

Mas a obra de arte não seria dependente do artista? Essa pergunta pode parecer bem simples: é somente através do artista que a obra de arte se fará. Porém é também somente através da obra que o artista se fará, ou seja, não há artista sem arte. Esse é o círculo que Heidegger nos apresenta:

A pergunta pelo originário da obra de arte pergunta pela proveniência de sua essência. A obra surge através e a partir da atividade do artista, segundo a opinião corrente. Porém, de onde e através do que o artista é o que é? Através da obra (…) O artista é a origem da obra. A obra é a origem do artista. Nenhum é sem o outro. Do mesmo modo também nenhum dos dois sustenta sozinho o outro. Artista e obra são em-si e em sua mútua referência através de um terceiro, que é o primeiro, ou seja, através daquilo a partir de onde artista e obra de arte têm seu nome, através da arte.

Aqui, na introdução do livro “A origem da obra de arte”, Heidegger diz que “nenhum dos dois sustenta sozinho o outro”, se referindo ao artista e à obra. Tomo essa afirmação como verdade somente em um sentido metafísico, onde as existências de artista e obra estão ligadas “através de um terceiro, que é o primeiro, ou seja, (…) através da arte”. Considero a união artista-obra somente existente no tempo levado pelo processo de criação da arte pelo artista (ou do artista pela arte), ou seja: a obra, uma vez pronta e feita, se sustenta sozinha. Seu “obrar”, terminado o processo de criação, será agora entregue aos seus leitores, dentre os quais o próprio autor será um (“leitores” aqui tem o sentido amplo do apreciador, avaliador ou conhecedor de qualquer tipo de arte, e não apenas da literária).

No que isso tem a ver com o post anterior? Uma das questões que levantei e que também muito me incomodam é a diferença entre dever da arte e poder da arte. Disse que o único dever que a arte possui é o de ser arte. Mas quais os limites para uma coisa ser ou não uma obra de arte? É uma pergunta extremamente presente em nossas pós-modernices. Particularmente, acredito que o que determina isso é somente a consciência do artista de estar produzindo arte, resulte no que resultar. Já o poder da arte reside na sua independência, sua infinita multiplicidade de significados – significados esses desgarrados daquele que o autor lhe dá. Esse será só mais um dos possíveis, quando o autor virar leitor ao final do processo de criação. Barthes trabalhou facilmente muito dessa minha inquietação no artigo “A morte do autor”. Termino o post com o que ele diz:

A explicação da obra é sempre procurada do lado de quem a produziu, como se, através da alegoria mais ou menos transparente da ficção, fosse sempre afinal a voz de uma só e mesma pessoa, o autor, que nos entregasse a sua “confidência”.

(…)

Assim se revela o ser total da escrita: um texto é feito de escritas múltiplas, saídas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação; mas há um lugar em que essa multiplicidade se reúne, e esse lugar não é o autor, como se tem dito até aqui, é o leitor: o leitor é o espaço exato em que se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de que uma escrita é feita; a unidade de um texto não está na sua origem, mas no seu destino, mas este destino já não pode ser pessoal: o leitor é um homem sem história, sem biografia, sem psicologia; é apenas esse alguém que tem reunidos num mesmo campo todos os traços que constituem o escrito.

(…)

O nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do autor.

Comentários

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7 Comentários »

Jun Shimada
2008-10-15 22:36:11

Acho legal que o Barthes mate o autor. Mas dizer que fica tudo pelo leitor me parece maldade com a obra, meio desvalorizada que passa a poder ser qualquer coisa em favor de uma subjetividade.

Marlon
2008-10-15 23:20:39

Mas, quando tudo fica para o leitor, não é o autor que perde e é desvalorizado, ao invés da obra?

 
 
Jun Shimada
2008-10-16 17:49:04

Só se fosse uma gangorra. Você acha que funciona assim? Acho não.

 
Emmanuel
2008-12-04 15:17:11

Marlon,

Quanto ao questionamento sobre os limites do que pode ou não ser considerado artístico, ao colocar o critério na consciência do artista de estar produzindo arte, colocamos a questão no puro subjetivismo ou na pós-modernice relativista que você aponta. Se o critério é a consciência do autor, tudo pode ser arte, conforme a disposição pessoal do artista. Se o artista achar que pendurar um cachorro para morrer de fome no museu é arte (acredite, isso já aconteceu), então isso passa a ser arte?

A questão é um tanto mais profunda. Primeiro, devemos nos perguntar: de onde vem a consciência do artista de estar produzindo arte? De que maneira o artista identifica o produto de seu trabalho como sendo arte? Isso é simples: exite um conceito de arte, historicamente constituído e socialmente estabelecido, a partir do qual o artista parte, mesmo que seja para colocar esse mesmo conceito em xeque, como fizeram Duchamps e os dadaístas a seu tempo.

Em suma, o que eu estou querendo dizer é que a definição do que é arte ou não depende menos de uma “essência” da obra de arte do que de uma convenção criada pelas várias instituições que dão legitimidade à produção artística; instituições que, via de regra, surgem com a necessidade de articular o sistema artístico que depende de autores e receptores (aí temos museus, editoras, bibliotecas, academias, etc.).

O problema da arte “modernista”, que foi legado para a arte contemporânea, é um processo pelo qual a prática artística passa a não coincidir mais com o conceito do que seja a arte (exemplo “princeps” disso é o mictório de Duchamps, apresentado como obra de arte), criando uma zona de indistinção que o conceito de arte não consegue mais abarcar, sendo obrigado a se expandir cada vez mais, sem nunca conseguir uma definição segura e estável.

A questão de se um cahorro morrendo de fome é arte ou não passa a depender muito menos de uma definição normativa do que é a arte do que do entendimento dos curadores de um museu ou dos organizadores de uma bienal. Um cachorro morrendo de fome pode ser arte numa bienal de artes contemporâneas, mas certamente não o será no Louvre. Depende do espaço institucional no qual se apresenta o referido fato.

2008-12-11 18:25:52

Emmanuel,

Você, propondo que a questão é mais profunda, foi em direção ao que, na proposta desse texto, eu tento eliminar, ao que pra mim é muito superficial: tudo que vem de fora pra dentro da arte, tudo que tem essa idéia de “conceito”, que não faz parte da coisa enquanto essência, e sim faz parte do que vemos em relação a ela. Como você disse: “convenção criada pelas várias instituições que dão legitimidade à produção artística”. Tanto “convenção” quanto “legitimidade” estão no bojo da idéia de conceito.

“Um cachorro morrendo de fome pode ser arte numa bienal de artes contemporâneas, mas certamente não o será no Louvre.” Concordo com esse exemplo e com os outros, é claro que a discussão sobre arte não pode deixar de passar pela articulação do sistema artístico.

A proposta é pensar no que é a arte em essência, sem necessariamente buscar uma “definição normativa”, inclusive porque definindo estamos novamente no bojo da conceituação, fazendo o movimento de fora pra dentro. A proposta é pensar a origem e a natureza. Vou resumir meu texto em uma só questão, sem passar pelo viés do que você disse no comentário. Em sua essência, quais os limites para uma coisa ser ou não uma obra de arte, além da consciência do artista?

Emmanuel
2008-12-19 15:48:57

Marlon,

Entendo o seu ponto de vista, mas faço uma ressalva. O “conceito” é uma tentativa de transpor algo de verdadeiro sobre alguma coisa em linguagem discursiva; ou seja: é através de conceitos que formulamos o conhecimento, filosoficamente falando. Dessa maneira, não podemos pensar na origem ou na natureza das coisas sem passar pelos seus conceitos, ou, no mínimo, não podemos passar da intuição cega sobre o que uma coisa é para a consciência racional do que ela seja sem transpô-la para o âmbito dos conceitos. Por isso, o conceito não faz parte unicamente de linhas “historicistas”, mas de toda e qualquer linha. Barthes e Heidegger, tanto quanto Marx e Weber, assim como Descartes e Freud, trabalham com conceitos. A diferença está na forma de, epistemologicamente, abordar esses conceitos.

Dito isso, gostaria de dizer algumas coisas. Para Adorno, tanto quanto o conceito é a expressão da verdade em linguagem discursiva, em arte, a verdade está na forma. O único problema é que não poderemos dizer nada de verdeiro em linguagem discursiva sobre a forma de uma obra de arte sem traduzi-la em conceitos. Basicamente, é essa o trabalho de um crítico literário: constatar algo de verdadeiro (prefiro dizer “possível” ou “pertinente”) sobre a forma de uma obra literária e colocá-lo em linguagem discursiva.

Agora podemos entrar na minha discordância com o seu ponto de vista. Não vejo como o mictório de Duchamps possa compartilhar da mesma “essência” artística, da mesma natureza, que um quadro renascentista. São idéias radicalmente diferentes de arte. Para o homem contemporâneo, o mictório pode ser arte, para o homem renascentista, se houvessem mictórios em sua época, nunca. E o que diferencia o modo de o homem contemporâneo pensar arte do que pensava o renascentista? Por que os renascentistas, com a sua galeria de “gênios universais”, nunca perceberam o potencial artístico de um mictório? Simples, porque se passou meio milênio entre um e outro. Isso não é algo insignificante, pois basta lembrar que é uma diferença de tempo que corresponde a toda a História do Brasil!

A questão poderia ser desfeita afirmando: “Mas o mictório de Duchamps não é arte mesmo”. Mas aí estaremos entrando num ponto de vista puramente subjetivo e contrariando dados da realidade objetiva, na qual o tal mictório, culturalmente falando, é considerada arte.

Mas o grande problema é que a principal questão do meu comentário anterior ainda não foi contemplada. Você afirma:

“Mas quais os limites para uma coisa ser ou não uma obra de arte? (…). Particularmente, acredito que o que determina isso é somente a consciência do artista de estar produzindo arte, resulte no que resultar.”

Aí eu questionei:

“(…) de onde vem a consciência do artista de estar produzindo arte? De que maneira o artista identifica o produto de seu trabalho como sendo arte?”

Essa consciência não é historicamente constituída? Ou será que a obra de arte renascentista não é algo de essencialmente diferente do mictório dadaísta, e a obra renascentista já possuiria dentro de si, como potencialidade de desenvolvimento, a “obra” de Duchamps? E se isso fosse verdade, quais os fatores que possibilitaram que tal potencialidade se desenvolvesse apenas com a arte moderna e não antes? Tais fatores não seriam históricos? Além disso, quem poderá negar que o indivíduo, como o artista, é historicamente constituído? Ou estou enganado e o passar do tempo não modifica em nada a nossa forma de viver e de ver o mundo?

Em segundo lugar, colocando o critério na consciência do artista, não estamos colocando o critério de “fora para dentro” da obra de arte? Caso contrário, a obra de arte nada mais é do que a objetivação da consciência do artista e, desse modo, temos justamente o contrário da “morte do autor”, e o critério que delimita o que é ou não é artístico deveria ser procurado nas disposições psicológicas do autor, nas suas idéias e em sua experiência de vida. Depois deveríamos simplesmente localizar isso tudo em sua obra.

Em suma, ao colocar o critério na consciência do artista você não está indo contra a sua própria argumentação de que “acredito na total independência da obra de arte em relação ao seu autor ou em relação à qualquer coisa”?

Sei que há diferença entre autor e artista, pois o artista se forma na própria obra de arte apenas durante o processo de criação (”Considero a união artista-obra somente existente no tempo levado pelo processo de criação da [obra de]arte pelo artista “), mas se o critério está todo colocado no artista, há uma preponderância do artista sobre a obra, desaparecendo aquele terceiro termo de mediação entre ambos, segundo Heidegger:

“Artista e obra são em-si e em sua mútua referência através de um terceiro, que é o primeiro, ou seja, através daquilo a partir de onde artista e obra de arte têm seu nome, através da arte.”

Quando se diz que o “terceiro é o primeiro”, quer dizer que ele é o prioritário, e não que ele correponda ao primeiro termo da relação “artista e obra”, que seria, no caso, o artista. Então você cita o Heidegger colocando-o em contradição com a sua argumentação posterior, pois você coloca o critério no artista, quando na verdade o que Heidegger diz é que existe um terceiro fator, a arte, a partir do qual “artista e obra de arte têm seu nome”, daí a arte ser o terceiro termo que, na verdade, é o primeiro em importância, pois define os outros. Agora, como Heidegger define esse terceiro termo, que é justamente o principal, é o que está faltando na sua argumentação.

Para finalizar, só gostaria de dizer que se a obra de arte se define “de acordo com cada leitor, de outra forma diferente, ou de outras formas diferentes, em progressão infinita (sem que esse termo se torne matemático)” é o cúmulo do relativismo, da “pós-modernice”. Toda obra possui, sim, um conteúdo definido, algo objetivamente constituído, mas deixa margem para uma “variabilidade interpretativa” graças aos seus “lugares-vazios”, daí a metáfora da partitura que Iser emprega para falar do texto literário. Além disso, se a definição da obra de arte está entregue ao sabor de “cada leitor”, então a definição não está com o artista e, novamente, também está colocada de “fora para dentro”, do leitor para a obra.

(Comments wont nest below this level)
Emmanuel
2008-12-19 15:52:20

P.S.: Onde se lê “e a obra renascentista já possuiria dentro de si, como potencialidade de desenvolvimento, a “obra” de Duchamps?”, leia-se: “OU a obra renascentista…”

 
 
 
 
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