Sobre “Tropa de Elite”
Postado em October 4, 2008
Categoria Arte, Cinema |
Após o Diego fazer uma bagunça aqui com o servidor do Breviário e meus dois últimos posts sumirem, sem explicação, como a ilha de Lost, re-posto o texto sobre o filme Tropa de Elite. Eu dizia que, desde que escrevi esse texto, na ocasião em que o filme estava em cartaz e em voga, não havia encontrado de nenhuma maneira, entre o enxame de palavras e besteiras faladas sobre ele, algum texto que se aproximasse, de algum modo, do que eu pensava. Há pouco tempo, conheci o articulista Nivaldo Cordeiro, e assim descobri um texto seu sobre o filme, que, de certa forma, toca em alguns pontos do meu texto, que é esse que publico aqui embaixo.
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Engraçado ver como o recente filme Tropa de Elite foi muito pouco, ou nada, encarado como arte. Por todo lado, o filme era tachado bom ou ruim de acordo com a opinião política de quem o estava criticando. Algo como dizer que Guernica, um dos mais famosos quadros de Picasso, é uma obra de arte ruim pois os bombardeios à Espanha civil eram necessários. Estamos cada vez mais imersos no vício marxista de tudo analisar de acordo com sua importância e função socio-política.
Tropa de Elite apresentou questões-tabu da sociedade, e, a princípio, é de se estranhar o absurdo sucesso de um filme que traz em pauta drogas, corrupção e marginalidade, como se não estivéssemos rodeados dessas imagens e discussões, por todos os meios midiáticos, e como se também o cinema nacional já não se tenha esgotado disso (afinal, não há cinema mais repetitivo que o brasileiro). Mas esse filme traz algo a mais, algo como uma bolha de sangue-frio.
Quando o assisti, vi que a coisa mais fácil seria tachar sua bagagem política de idiota, pífia. A velha história de que não adianta nada o confrontismo policial como tentativa de solução se não estiver associado à grande e temerosa (no Brasil) revolução-base, capaz de dissociar grande número das indelicadezas a que estamos entregues: a educação, que exige um pensamento de extremo longo-prazo, um pensamento que, convenhamos, é inadmissível para a nossa classe política. Logo percebi também que é tão fácil quanto tachar sua bagagem política de inteligente.
Mas onde está a arte? Pelas falações esquerdistas por toda parte, o filme era dito fascista. Como, talvez, se Goya, ao pintar franceses executando espanhóis, estivesse defendendo tal medida social ou politicamente. Como, ao analisar Guernica, dizer que Picasso era um anti-totalitarista por estar representando o sofrimento da guerra causado pelos regimes ditatoriais da época. O dever da arte de ser arte sucumbiu.
Muitas das revolucionices e vanguardices do século XX tentaram embutir na arte o dever de ser engajada, o dever se comprometer com os problemas da sociedade. Nada que não seja de se esperar de um século onde, velado ou desvelado, o marxismo tomou conta de quase todos os campos do pensamento. Erram na pretensão da obrigatoriedade. Arte é poder com um único dever. Enquando poder, que seja ela de tudo: servente ou não-servente, útil ou inútil, engajada ou desengajada. Enquanto dever, o de ser arte.
Não existe mais a dissociação entre autor e obra. Não existe mais a análise artística, todos estão interessados é em saber se o sujeito é esquerdopata ou direitopata, se é fascistocrata, burocista, burguesionário ou pequeno-revolucionês.
Mas não poderia ser sua arte este debate? Esse confronto do pensamento médio brasileiro com aquilo em que ele realmente acredita? E até mesmo a provocação com esse marxismo visível?
(Eu sou a única pessoa que não assistiu ao Tropa de Elite.)
Sim, ele (o autor) pode ter o debate como sua arte. Mas isso não está dentro do poder da arte, ao invés do dever da arte? A arte enquanto arte em si é a obra - e a obra é a obra cinematográfica. Se o autor considera mais artístico o debate, bom, isso vai dele enquanto leitor da própria obra.
Ah, e a culpa de perder os posts não foi minha! Você decerto fez algo errado com seu Wordpress, só pode.
Também não assisti Tropa de Elite! Diego, somos irmãos de útero (tipo gêmeos bivitelinos).
Olá, Marlon-de-uma-noite-só.