Jerusalem
Postado em September 11, 2008
Categoria Literatura |
Inicio hoje, a convite de meu amigo Diego, mantenedor deste Breviário – que acompanho, como leitor, talvez desde seu início e onde não falto a ler alguns de seus integrantes – este blog. Assim, para não fazer deste mais um dos inúteis posts de apresentação (não que os futuros posts não sejam, também, inúteis, pelo bom e pelo ruim sentido da palavra – e serão), limito-me a dizer a total ausência de método que terei aqui.
***
Inicio, então, publicando uma tradução de uma iluminura do William Blake que fiz há pouco tempo – fiz, como ainda faço, por força que simplesmente impele – porque considero, no balaio de Eliot e de um concretismo às avessas, a inexistência da tradução de poesia, que pode funcionar, no máximo, como versão-introdução ao poema em si.
“Jerusalem”, como é conhecido o poema sem título integrante do prefácio de “Milton: a poem in two books” (onde o personagem é o poeta John Milton que, como Virgílio a Dante na Divina Comédia, descerá dos céus a Blake), foi escrito em 1804 e, a partir de 1916, devido a sua orquestração por Sir Hubert Parry, ganhou popularidade e hoje é tido e considerado como o “unnoficial hymn” do Reino Unido – embora a mim não haja dúvida de que é muito mais belo do que “God save the queen”.
And did those feet in ancient time
Walk upon England’s mountains green?
And was the holy Lamb of God
On England’s pleasant pastures seen?And did the Countenance Divine
Shine forth upon our clouded hills?
And was Jerusalem builded here
Among these dark Satanic Mills?Bring me my Bow of burning gold;
Bring me my Arrows of desire:
Bring me my Spear: O clouds unfold!
Bring me my Chariot of fire!I will not cease from Mental Fight,
Nor shall my sword sleep in my hand,
Till we have built Jerusalem,
In England’s green & pleasant Land.
A mim me parecia uma ascenção estranha, para um país essencialmente cristão, a de um poema inspirado na história apócrifa, do banido Livro das Revelações, da visita do Jesus jovem à Inglaterra com fim de construir uma nova Jerusalém. Até que descobri a dobra interpretativa da igreja britânica, que passou a usar Jerusalém como metáfora do céu. Mas a tradução:
Do original, os octossílabos acentuados na quarta se transformaram no tradicional decassílabo heróico, acentuados na sexta – e a rima foi sacrificada. Força do desacordo lingüístico.
***
E andaram esses pés, em dias antigos,
por sobre os verdes montes da Inglaterra?
Foi o santo Cordeiro de Deus pelos
seus adoráveis campos avistado?
Acaso sobre nossas nevoadas
colinas reluziu o Rosto Divino?
E foi Jerusalém aqui erguida
entre negros Satânicos Moinhos?
Tragam meu Arco de ouro incandescente,
tragam as minhas Flechas de desejo!
Tragam a minha Lança: Ó névoa, se abra!
Tragam a minha Carruagem de fogo!
Não me derrotarão Lutas Mentais,
nem dormirá a Espada em minhas mãos,
até Jerusalém aqui erguermos
na adorável e verde Terra inglesa.
***
Diversos pontos ainda me incomodam nessa tradução, listo alguns deles:
1 - O verso “Tragam a minha Carruagem de fogo” não obedece à acentuação. Para fazê-lo obedecer, seria preciso sacrificar demais o verso original, por isso optei pela tradução literal, que tem dez sílabas porém acentua na sétima.
2 - Batalhei um bocado para que “Mental Fight” fosse traduzido por “Conflitos Mentais”. Novamente, em prol do não-sacrifício do verso, rendi-me a “Lutas” para satisfazer a métrica.
3 - O término do terceiro verso com “pelos” ocasiona uma dependência com o verso seguinte que não ocorre em nenhuma parte do poema.
***
http://www.youtube.com/watch?v=xHTwQUe9P8M – Jerusalem de Hubert Parry na versão de Emerson, Lake & Palmer.
http://www.youtube.com/watch?v=NiitzwuD-qU - Jerusalem de Hubert Parry na versão de Avi.

a tradução acabou por ficar muito boa, marlon. e a menininha cantando é impagável! linda!