Defuntos brasileiros
Postado em
October 19, 2008
Categoria: Literatura | Comente
A princípio, seria de se imaginar estranha a idéia de produção poética por parte do jornalista Olavo de Carvalho, para quem conhece as peculiaridades de seu trabalho. Mas, escondido em seu site, pode-se ter conhecimento de três sonetos de sua autoria: destaco, aqui, o terceiro deles, que tive como o único de qualidade.
Adeus, ou: Soneto do defunto brasileiro
— Tendo a terra por único ornamento,
que mau defunto é aquele que, sem nome,
baixa ao fundo mais vil do esquecimento?
Morreu de bala, de velhice ou fome?— O sino que de longe estais ouvindo
redobra só por quem ninguém conhece,
porque não era ninguém, morreu dormindo
e era o tipo que em vida já se esquece.— Deixou viúva, filhos, testamento?
— Não tinha a quem deixar, e não deixou.
— Pois há de emudecer sob o cimentosem sequer um adeus de quem ficou?
— Já lhe foi dito adeus quando nasceu
e não adianta falar com quem morreu.
Reparo, antes de tudo, no estranho diálogo entre a primeira e a segunda estrofe: vê-se dois conversantes, mas não se vê muita ligação lógica entre o que dizem, entre a resposta e a pergunta. Isso faz com que se possa unir, inclusive, as duas estrofes a uma só voz. A quebra estará nos tercetos: ali, o diálogo claro repete a idéia que percorre todo o poema sem que o belo enfraqueça. E não que tenha sido enfraquecido nos quartetos.
Embora o tendo como de qualidade, tenho-o sem saber dizer se seria enfim sugerível que o Olavo continuasse a escrever poesia. E creio que ele não fará.
O soneto dialoga intensamente com uma passagem de Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, do qual reproduzo aqui um trecho:
ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO
— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.— Viverás, e para sempre,
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
— Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
— Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
— Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
— Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
— Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
— Será de terra tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
— Será de terra e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
— Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
— Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
— Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
— Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.
Independência da obra, morte do autor
Postado em
October 15, 2008
Categoria: Arte, Literatura | 3 comentários
Seguindo a linha de pensamento do texto do post anterior, tenho buscado em Roland Barthes e em Heidegger um pouco de suporte à uma questão que me incomoda muito: a ligação entre autor e obra, entre artista e arte, sua existência e seus limites.
Em primeiro lugar, acredito na total independência da obra de arte em relação ao seu autor ou em relação à qualquer coisa – ela é de uma forma e será, de acordo com cada leitor, de outra forma diferente, ou de outras formas diferentes, em progressão infinita (sem que esse termo se torne matemático).
Mas a obra de arte não seria dependente do artista? Essa pergunta pode parecer bem simples: é somente através do artista que a obra de arte se fará. Porém é também somente através da obra que o artista se fará, ou seja, não há artista sem arte. Esse é o círculo que Heidegger nos apresenta:
A pergunta pelo originário da obra de arte pergunta pela proveniência de sua essência. A obra surge através e a partir da atividade do artista, segundo a opinião corrente. Porém, de onde e através do que o artista é o que é? Através da obra (…) O artista é a origem da obra. A obra é a origem do artista. Nenhum é sem o outro. Do mesmo modo também nenhum dos dois sustenta sozinho o outro. Artista e obra são em-si e em sua mútua referência através de um terceiro, que é o primeiro, ou seja, através daquilo a partir de onde artista e obra de arte têm seu nome, através da arte.
Aqui, na introdução do livro “A origem da obra de arte”, Heidegger diz que “nenhum dos dois sustenta sozinho o outro”, se referindo ao artista e à obra. Tomo essa afirmação como verdade somente em um sentido metafísico, onde as existências de artista e obra estão ligadas “através de um terceiro, que é o primeiro, ou seja, (…) através da arte”. Considero a união artista-obra somente existente no tempo levado pelo processo de criação da arte pelo artista (ou do artista pela arte), ou seja: a obra, uma vez pronta e feita, se sustenta sozinha. Seu “obrar”, terminado o processo de criação, será agora entregue aos seus leitores, dentre os quais o próprio autor será um (“leitores” aqui tem o sentido amplo do apreciador, avaliador ou conhecedor de qualquer tipo de arte, e não apenas da literária).
No que isso tem a ver com o post anterior? Uma das questões que levantei e que também muito me incomodam é a diferença entre dever da arte e poder da arte. Disse que o único dever que a arte possui é o de ser arte. Mas quais os limites para uma coisa ser ou não uma obra de arte? É uma pergunta extremamente presente em nossas pós-modernices. Particularmente, acredito que o que determina isso é somente a consciência do artista de estar produzindo arte, resulte no que resultar. Já o poder da arte reside na sua independência, sua infinita multiplicidade de significados – significados esses desgarrados daquele que o autor lhe dá. Esse será só mais um dos possíveis, quando o autor virar leitor ao final do processo de criação. Barthes trabalhou facilmente muito dessa minha inquietação no artigo “A morte do autor”. Termino o post com o que ele diz:
A explicação da obra é sempre procurada do lado de quem a produziu, como se, através da alegoria mais ou menos transparente da ficção, fosse sempre afinal a voz de uma só e mesma pessoa, o autor, que nos entregasse a sua “confidência”.
(…)
Assim se revela o ser total da escrita: um texto é feito de escritas múltiplas, saídas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação; mas há um lugar em que essa multiplicidade se reúne, e esse lugar não é o autor, como se tem dito até aqui, é o leitor: o leitor é o espaço exato em que se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de que uma escrita é feita; a unidade de um texto não está na sua origem, mas no seu destino, mas este destino já não pode ser pessoal: o leitor é um homem sem história, sem biografia, sem psicologia; é apenas esse alguém que tem reunidos num mesmo campo todos os traços que constituem o escrito.
(…)
O nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do autor.
Sobre “Tropa de Elite”
Postado em
October 4, 2008
Categoria: Arte, Cinema | 4 comentários
Após o Diego fazer uma bagunça aqui com o servidor do Breviário e meus dois últimos posts sumirem, sem explicação, como a ilha de Lost, re-posto o texto sobre o filme Tropa de Elite. Eu dizia que, desde que escrevi esse texto, na ocasião em que o filme estava em cartaz e em voga, não havia encontrado de nenhuma maneira, entre o enxame de palavras e besteiras faladas sobre ele, algum texto que se aproximasse, de algum modo, do que eu pensava. Há pouco tempo, conheci o articulista Nivaldo Cordeiro, e assim descobri um texto seu sobre o filme, que, de certa forma, toca em alguns pontos do meu texto, que é esse que publico aqui embaixo.
***
Engraçado ver como o recente filme Tropa de Elite foi muito pouco, ou nada, encarado como arte. Por todo lado, o filme era tachado bom ou ruim de acordo com a opinião política de quem o estava criticando. Algo como dizer que Guernica, um dos mais famosos quadros de Picasso, é uma obra de arte ruim pois os bombardeios à Espanha civil eram necessários. Estamos cada vez mais imersos no vício marxista de tudo analisar de acordo com sua importância e função socio-política.
Tropa de Elite apresentou questões-tabu da sociedade, e, a princípio, é de se estranhar o absurdo sucesso de um filme que traz em pauta drogas, corrupção e marginalidade, como se não estivéssemos rodeados dessas imagens e discussões, por todos os meios midiáticos, e como se também o cinema nacional já não se tenha esgotado disso (afinal, não há cinema mais repetitivo que o brasileiro). Mas esse filme traz algo a mais, algo como uma bolha de sangue-frio.
Quando o assisti, vi que a coisa mais fácil seria tachar sua bagagem política de idiota, pífia. A velha história de que não adianta nada o confrontismo policial como tentativa de solução se não estiver associado à grande e temerosa (no Brasil) revolução-base, capaz de dissociar grande número das indelicadezas a que estamos entregues: a educação, que exige um pensamento de extremo longo-prazo, um pensamento que, convenhamos, é inadmissível para a nossa classe política. Logo percebi também que é tão fácil quanto tachar sua bagagem política de inteligente.
Mas onde está a arte? Pelas falações esquerdistas por toda a parte, o filme era dito fascista. Como, talvez, se Goya, ao pintar franceses executando espanhóis, estivesse defendendo tal medida social ou politicamente. Como, ao analisar Guernica, dizer que Picasso era um anti-totalitarista por estar representando o sofrimento da guerra causado pelos regimes ditatoriais da época. O dever da arte de ser arte sucumbiu.
Muitas das revolucionices e vanguardices do século XX tentaram embutir na arte o dever de ser engajada, o dever se comprometer com os problemas da sociedade. Nada que não seja de se esperar de um século onde, velado ou desvelado, o marxismo tomou conta de quase todos os campos do pensamento. Erram na pretensão da obrigatoriedade. Arte é poder com um único dever. Enquando poder, que seja ela de tudo: servente ou não-servente, útil ou inútil, engajada ou desengajada. Enquanto dever, o de ser arte.
Não existe mais a dissociação entre autor e obra. Não existe mais a análise artística, todos estão interessados é em saber se o sujeito é esquerdopata ou direitopata, se é fascistocrata, burocista, burguesionário ou pequeno-revolucionês.
Jerusalem
Postado em
September 11, 2008
Categoria: Literatura | Um comentário
Inicio hoje, a convite de meu amigo Diego, mantenedor deste Breviário – que acompanho, como leitor, talvez desde seu início e onde não falto a ler alguns de seus integrantes – este blog. Assim, para não fazer deste mais um dos inúteis posts de apresentação (não que os futuros posts não sejam, também, inúteis, pelo bom e pelo ruim sentido da palavra – e serão), limito-me a dizer a total ausência de método que terei aqui.
***
Inicio, então, publicando uma tradução de uma iluminura do William Blake que fiz há pouco tempo – fiz, como ainda faço, por força que simplesmente impele – porque considero, no balaio de Eliot e de um concretismo às avessas, a inexistência da tradução de poesia, que pode funcionar, no máximo, como versão-introdução ao poema em si.
“Jerusalem”, como é conhecido o poema sem título integrante do prefácio de “Milton: a poem in two books” (onde o personagem é o poeta John Milton que, como Virgílio a Dante na Divina Comédia, descerá dos céus a Blake), foi escrito em 1804 e, a partir de 1916, devido a sua orquestração por Sir Hubert Parry, ganhou popularidade e hoje é tido e considerado como o “unnoficial hymn” do Reino Unido – embora a mim não haja dúvida de que é muito mais belo do que “God save the queen”.
And did those feet in ancient time
Walk upon England’s mountains green?
And was the holy Lamb of God
On England’s pleasant pastures seen?And did the Countenance Divine
Shine forth upon our clouded hills?
And was Jerusalem builded here
Among these dark Satanic Mills?Bring me my Bow of burning gold;
Bring me my Arrows of desire:
Bring me my Spear: O clouds unfold!
Bring me my Chariot of fire!I will not cease from Mental Fight,
Nor shall my sword sleep in my hand,
Till we have built Jerusalem,
In England’s green & pleasant Land.
A mim me parecia uma ascenção estranha, para um país essencialmente cristão, a de um poema inspirado na história apócrifa, do banido Livro das Revelações, da visita do Jesus jovem à Inglaterra com fim de construir uma nova Jerusalém. Até que descobri a dobra interpretativa da igreja britânica, que passou a usar Jerusalém como metáfora do céu. Mas a tradução:
Do original, os octossílabos acentuados na quarta se transformaram no tradicional decassílabo heróico, acentuados na sexta – e a rima foi sacrificada. Força do desacordo lingüístico.
***
E andaram esses pés, em dias antigos,
por sobre os verdes montes da Inglaterra?
Foi o santo Cordeiro de Deus pelos
seus adoráveis campos avistado?
Acaso sobre nossas nevoadas
colinas reluziu o Rosto Divino?
E foi Jerusalém aqui erguida
entre negros Satânicos Moinhos?
Tragam meu Arco de ouro incandescente,
tragam as minhas Flechas de desejo!
Tragam a minha Lança: Ó névoa, se abra!
Tragam a minha Carruagem de fogo!
Não me derrotarão Lutas Mentais,
nem dormirá a Espada em minhas mãos,
até Jerusalém aqui erguermos
na adorável e verde Terra inglesa.
***
Diversos pontos ainda me incomodam nessa tradução, listo alguns deles:
1 - O verso “Tragam a minha Carruagem de fogo” não obedece à acentuação. Para fazê-lo obedecer, seria preciso sacrificar demais o verso original, por isso optei pela tradução literal, que tem dez sílabas porém acentua na sétima.
2 - Batalhei um bocado para que “Mental Fight” fosse traduzido por “Conflitos Mentais”. Novamente, em prol do não-sacrifício do verso, rendi-me a “Lutas” para satisfazer a métrica.
3 - O término do terceiro verso com “pelos” ocasiona uma dependência com o verso seguinte que não ocorre em nenhuma parte do poema.
***
http://www.youtube.com/watch?v=xHTwQUe9P8M – Jerusalem de Hubert Parry na versão de Emerson, Lake & Palmer.
http://www.youtube.com/watch?v=NiitzwuD-qU - Jerusalem de Hubert Parry na versão de Avi.
