Dois poemas para Gerardo Mello Mourão
Postado em
January 18, 2010
Categoria: Gerardo Mello Mourão, Poesia | Um comentário
Espécie de Coda
(sob a leitura do romance “O valete de espadas”)
Os homens de mil anos
cá estamos,
presos na vertical realidade
a que ao bater o tempo o coração
nos impõe. E há em cada
acordar esse estranho
nascer, espécie de Coda,
que já não mais sabemos
desígnios e deveres
dos homens,
nós,
os homens de mil anos, afogados
nesse então outro tempo.
Soneto III do Livro de Cecília
(sob a leitura de “Os peãs”)
E me pedes o mundo de uma forma
que é tão pura agonia: não há palavra
que diga a ti o lírio nem poesia
que mostre a ti a viva cor dos sinos,
das pálidas camélias, dos teus olhos
verdes e desvairados para a vida
e para a morte abertos, da tua boca
aberta como um fôlego da alma.
Se ao sentido dar nome já faz pobre
tudo o que aos olhos vige, quando o chão
desaba de rangido em pedra, vão,
o chão dessa lacuna a preencher
nas coisas ao redor, até o não ver
é ser vago nos olhos que hoje não.
O golpe de Chico Mário
Postado em
September 2, 2009
Categoria: Música | Um comentário
Nascido do mesmo ventre que Betinho e Henfil, o terceiro “irmão de sangue” – Francisco Mário – escreveu a história do Brasil com um violão. Executada por ele e, entre outros instrumentistas, os violoncelistas Jaques Morelenbaum e David Chew, “Suíte Brasil” conta nossa história em dez composições. Longe de ser pretensioso, primeira palavra que vem à cabeça, mesmo quando quase metade dos movimentos narram episódios da ditadura militar. Último disco do compositor, que morreu em 1988 pela AIDS adquirida numa transfusão de sangue, fruto da hemofilia que atingiu os três irmãos.
Três movimentos figuram as principais ressonâncias da ditadura:
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Em “1964”, o golpe militar. O baixo do violão soando como uma fria marcha. Marcha que fraqueja, dando espaço pra agudezas mais lentas, mas volta com a mesma intensidade.
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Em “1968”, o Ato Institucional nº5. No início, perfeita consonância de violinos e cellos com o violão. A partir de mais ou menos 1:05, volta a marcha grave do violão enquanto os violinos fazem movimentos de agonia. A partir dos 2:15, as vozes do violão dão impressão de terem domado as dos violinos, o que o final deixa claro que não acontece. Impressionantemente figurativo.
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Em “Balada negra”, o auge da repressão, entre 1971 e 1974. Diferentemente dos dois movimentos anteriores, a tristeza está em todos os instrumentos. Em particular nessa flauta.
Alexei Bueno e o “mitômano” Bruno Tolentino
Postado em
July 2, 2009
Categoria: Bruno Tolentino, Literatura | 27 comentários
Houve há pouco tempo nos jornais um pequeno barulho de uma polêmica entre Caetano Veloso e Alexei Bueno, originada aqui, quanto ao recente livro “Uma história da poesia brasileira”, do Alexei, que havia declarado uma cumplicidade entre tropicalistas e concretistas como um “esquema de uma-mão-lava-a-outra”, no qual “os concretistas concediam aos tropicalistas uma certa aura erudita – da qual eles nunca precisaram – e recebiam em troca uma certa aura popular”. Caso o interesse, há aqui um texto do Leandro Jardim sobre.
“Era recomendável para os concretistas atirar para o território da canção, o que sempre chamaram, com ar de nojo, de ‘discurso’, essa coisa com a qual foi construída toda a grande literatura universal, de Homero a Guimarães. Podia até haver uma admiração mútua entre tropicalistas e concretistas, mas a afinidade estética era nenhuma. Eles eram a negação de qualquer oralidade, que é a base da canção.” (Alexei Bueno para O Globo, 09/01/2009)
Comprei o livro quando soube do trecho em que Alexei escreve sobre Bruno Tolentino, alcunhando-o “mitômano” e, entre outras coisas, o acusando de plágio. Obviamente que não gerou a mesma polêmica, não tendo o Bruno a legião de protetores que tem Caetano, prontos pra contra-atacar qualquer coisa dita sobre sua imagem. Somente ouvi sobre isso, e mesmo assim um breve comentário, na palestra do Pedro Sette Câmara em um modesto seminário sobre o Tolentino, organizado pelo IFE em junho do ano passado.
Não pretendo me manifestar quanto às opiniões do Alexei sobre a pessoa do Bruno, afinal não tive a oportunidade de conhecê-lo, falecido há quase exatos dois anos. Meu interesse é a publicação deste texto na rede, e a possível conseqüente manifestação daqueles que conviveram com o Tolentino. Pois, conhecendo minimamente sua biografia, percebo diversos equívocos e exageros sensacionalistas por parte do Alexei.
Segue o trecho, que começa na página 390 de “Uma história da poesia brasileira” (G. Ermakoff Casa Editorial, 2007).
Após um rumoroso processo pela publicação de um livro inteiramente plagiado, em 1957, Infinito Sul – cujo título era de Sílvio Castro e os poemas de Celina Ferreira, Walmir Ayala, Afonso Félix de Souza e outros – e a publicação de Anulação e outros reparos, em 1963, o poeta carioca Bruno Tolentino (1940-2007) se afastou por três décadas do Brasil, retornando em 1993. A sua volta marcou a entrada na cena literária nacional do maior mitômano nela aparecido pelo menos desde a chegada de Antônio Botto, o poeta português, muito amigo de Fernando Pessoa, que aqui desembarcou nos anos de 1950, casado, apesar dele mesmo se intitular “o primeiro paneleiro oficial de Portugal”, e distribuindo elogios bombásticos sobre a sua obra, assinados pelos maiores autores universais da época, mas todos escritos por ele mesmo. Em pouquíssimo tempo Tolentino declarou em público que fora casado com a filha de Bertrand Russell (que deveria ter idade para ser sua avó), com a neta de Rilke, com a neta de René Char, além de ter sido astrólogo em Los Angeles por doze anos, ter vivido uma década em Alexandria, ter trabalhado como genealogista na Inglaterra, ter sido secretário pessoal de Auden, ter dado aulas por onze anos na Universidade de Oxford, e finalmente, isso um pouco depois, ter sido encarcerado por tráfico de drogas na Ilha do Diabo, para nem falar da sua origem na alta aristocracia, na sua mansão familiar e suas preceptoras inglesas, tendo nascido, na verdade, na mais banal classe média tijucana, filho de militar, e tendo vivido a adolescência num pequeno apartamento do mesmo bairro e em Niterói. Só na terra onde foi escrito “O homem que sabia javanês” tal conjunto de afirmações seria deglutido naturalmente como o foi, inclusive pela grande imprensa. A mitomania em si não desqualifica qualquer artista, mesmo um homem de gênio como o cineasta Mário Peixoto tinha fortes traços mitômanos, e isso tudo serve apenas como um índice da impossibilidade de se conhecer a biografia de um indivíduo que, somados os eventos pública e notoriamente por ele narrados, deveria ter perto de trezentos anos de idade. Após manter uma ruidosa polêmica com os concretistas, justamente num dos melhores aspectos deles, a tradução de poesia, reestreou com As horas de Katharina, em 1994. Com Os sapos de ontem, de 1995, atacando novamente os concretistas paulistas, se revelou um satírico interessante. Os deuses de hoje, do mesmo ano, compunha-se de poemas políticos, justificados por uma falsíssima luta sua contra a ditadura militar – mais um falso exilado – e não alcançou maior repercussão. Seguiram-se A balada do cárcere, em 1996, O mundo como Idéia, de 2002, e A imitação do amanhecer, de 2006, escrito em pretensos alexandrinos que nunca o foram. Toda a poesia de Bruno Tolentino é vazada numa musicalidade característica, dominada por uma espécie de vício do enjambement que chega a criar poemas quase inteiros sem que uma oração termine no final de um verso. Essa espécie de “realejo de enjambements”, monocórdio ao extremo, perpassa por quase tudo o que escreveu, lançando mão de uma técnica bastante defeituosa: versos de pé-quebrado, especialmente pelo uso e abuso de ectlipses, elisões romanas e inúmeras rimas consoantes que não o são. Vez por outra, em meio dessa grafomania versificatória tediosa e obsessiva, espécie de música de feira, surge um grande momento lírico, que não salva o essencial vazio de fundo que domina o conjunto, sem se falar da total inadequação entre um periódico coloquialismo e o tom geralmente elevado do verso. A sua poesia, na verdade, e qualquer leitor médio o percebe, é conduzida pelas rimas e pelo ritmo, e não o contrário, como qualquer poesia digna desse nome. Verdadeiro personagem de romance, com um talento verbal e histriônico espantoso, mas de repertório curto, um dos fatos mais interessantes da sua imponderável biografia é ter voltado para o Brasil dizendo-se exilado da ditadura militar e trazendo mesmo um livro sobre o assunto, após o fracasso do qual terminou seus dias – há quem diga que não morreu, quem garanta que ele está vivo – venerado pela mais rançosa extrema direita nacional.
Em memória de Bruno Tolentino
Postado em
June 19, 2009
Categoria: Bruno Tolentino, Poesia | Comente
Escrevo esta memória: faço-a mundo
não como alguém que em lágrimas transcreve
a dor da perda, o amor ao que há pouco
ainda não era a fuga, nem a leve
passagem ao mistério, do habitante
da nossa teia física que finda
sempre contra a vontade diletante.
Não dou minha memória assim à vida,
porque essa, enquanto tua, não se deu
de encontro à minha. Escrevo com a tristeza,
com a agonia do abismo de quem leu
teus versos descreventes do fugaz
e como pedra encara a luz cadente,
sabendo agora em carne o que ela faz.
Blogs brasileiros
Postado em
March 3, 2009
Categoria: Blogs brasileiros | Um comentário
O Indivíduo (Sergio de Biasi): A convoluta e perversa farsa da vida acadêmica
Ars Poetica (Érico Nogueira): “Nouvelle querelle des anciens et des modernes”
De como Borges resolveu os teoproblemas
Postado em
February 21, 2009
Categoria: Literatura | Comente
Fecho os olhos e vejo um bando de pássaros. A visão dura um segundo ou talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido o seu número? O problema envolve o da existência de Deus. Se Deus existe, o número é definido, porque Deus sabe quantos pássaros vi. Se Deus não existe, o número é indefinido, porque ninguém pode fazer a conta. Nesse caso, vi menos de dez pássaros (digamos) e mais de um, mas não vi nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três ou dois pássaros. Vi um número entre dez e um, que não é nove, oito, sete, seis, cinco etc. Esse número inteiro é inconcebível; ergo, Deus existe.
“Argumentum ornitologicum”, Jorge Luis Borges.
Independência da obra, morte do autor
Postado em
October 15, 2008
Categoria: Arte, Literatura | 9 comentários
Seguindo a linha de pensamento do texto do post anterior, tenho buscado em Roland Barthes e em Heidegger um pouco de suporte à uma questão que me incomoda muito: a ligação entre autor e obra, entre artista e arte, sua existência e seus limites.
Em primeiro lugar, acredito na total independência da obra de arte em relação ao seu autor ou em relação à qualquer coisa – ela é de uma forma e será, de acordo com cada leitor, de outra forma diferente, ou de outras formas diferentes, em progressão infinita (sem que esse termo se torne matemático).
Mas a obra de arte não seria dependente do artista? Essa pergunta pode parecer bem simples: é somente através do artista que a obra de arte se fará. Porém é também somente através da obra que o artista se fará, ou seja, não há artista sem arte. Esse é o círculo que Heidegger nos apresenta:
A pergunta pelo originário da obra de arte pergunta pela proveniência de sua essência. A obra surge através e a partir da atividade do artista, segundo a opinião corrente. Porém, de onde e através do que o artista é o que é? Através da obra (…) O artista é a origem da obra. A obra é a origem do artista. Nenhum é sem o outro. Do mesmo modo também nenhum dos dois sustenta sozinho o outro. Artista e obra são em-si e em sua mútua referência através de um terceiro, que é o primeiro, ou seja, através daquilo a partir de onde artista e obra de arte têm seu nome, através da arte.
Aqui, na introdução do livro “A origem da obra de arte”, Heidegger diz que “nenhum dos dois sustenta sozinho o outro”, se referindo ao artista e à obra. Tomo essa afirmação como verdade somente em um sentido metafísico, onde as existências de artista e obra estão ligadas “através de um terceiro, que é o primeiro, ou seja, (…) através da arte”. Considero a união artista-obra somente existente no tempo levado pelo processo de criação da arte pelo artista (ou do artista pela arte), ou seja: a obra, uma vez pronta e feita, se sustenta sozinha. Seu “obrar”, terminado o processo de criação, será agora entregue aos seus leitores, dentre os quais o próprio autor será um (“leitores” aqui tem o sentido amplo do apreciador, avaliador ou conhecedor de qualquer tipo de arte, e não apenas da literária).
No que isso tem a ver com o post anterior? Uma das questões que levantei e que também muito me incomodam é a diferença entre dever da arte e poder da arte. Disse que o único dever que a arte possui é o de ser arte. Mas quais os limites para uma coisa ser ou não uma obra de arte? É uma pergunta extremamente presente em nossas pós-modernices. Particularmente, acredito que o que determina isso é somente a consciência do artista de estar produzindo arte, resulte no que resultar. Já o poder da arte reside na sua independência, sua infinita multiplicidade de significados – significados esses desgarrados daquele que o autor lhe dá. Esse será só mais um dos possíveis, quando o autor virar leitor ao final do processo de criação. Barthes trabalhou facilmente muito dessa minha inquietação no artigo “A morte do autor”. Termino o post com o que ele diz:
A explicação da obra é sempre procurada do lado de quem a produziu, como se, através da alegoria mais ou menos transparente da ficção, fosse sempre afinal a voz de uma só e mesma pessoa, o autor, que nos entregasse a sua “confidência”.
(…)
Assim se revela o ser total da escrita: um texto é feito de escritas múltiplas, saídas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação; mas há um lugar em que essa multiplicidade se reúne, e esse lugar não é o autor, como se tem dito até aqui, é o leitor: o leitor é o espaço exato em que se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de que uma escrita é feita; a unidade de um texto não está na sua origem, mas no seu destino, mas este destino já não pode ser pessoal: o leitor é um homem sem história, sem biografia, sem psicologia; é apenas esse alguém que tem reunidos num mesmo campo todos os traços que constituem o escrito.
(…)
O nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do autor.
Sobre “Tropa de Elite”
Postado em
October 4, 2008
Categoria: Arte, Cinema | 5 comentários
Após o Diego fazer uma bagunça aqui com o servidor do Breviário e meus dois últimos posts sumirem, sem explicação, como a ilha de Lost, re-posto o texto sobre o filme Tropa de Elite. Eu dizia que, desde que escrevi esse texto, na ocasião em que o filme estava em cartaz e em voga, não havia encontrado de nenhuma maneira, entre o enxame de palavras e besteiras faladas sobre ele, algum texto que se aproximasse, de algum modo, do que eu pensava. Há pouco tempo, conheci o articulista Nivaldo Cordeiro, e assim descobri um texto seu sobre o filme, que, de certa forma, toca em alguns pontos do meu texto, que é esse que publico aqui embaixo.
***
Engraçado ver como o recente filme Tropa de Elite foi muito pouco, ou nada, encarado como arte. Por todo lado, o filme era tachado bom ou ruim de acordo com a opinião política de quem o estava criticando. Algo como dizer que Guernica, um dos mais famosos quadros de Picasso, é uma obra de arte ruim pois os bombardeios à Espanha civil eram necessários. Estamos cada vez mais imersos no vício marxista de tudo analisar de acordo com sua importância e função socio-política.
Tropa de Elite apresentou questões-tabu da sociedade, e, a princípio, é de se estranhar o absurdo sucesso de um filme que traz em pauta drogas, corrupção e marginalidade, como se não estivéssemos rodeados dessas imagens e discussões, por todos os meios midiáticos, e como se também o cinema nacional já não se tenha esgotado disso (afinal, não há cinema mais repetitivo que o brasileiro). Mas esse filme traz algo a mais, algo como uma bolha de sangue-frio.
Quando o assisti, vi que a coisa mais fácil seria tachar sua bagagem política de idiota, pífia. A velha história de que não adianta nada o confrontismo policial como tentativa de solução se não estiver associado à grande e temerosa (no Brasil) revolução-base, capaz de dissociar grande número das indelicadezas a que estamos entregues: a educação, que exige um pensamento de extremo longo-prazo, um pensamento que, convenhamos, é inadmissível para a nossa classe política. Logo percebi também que é tão fácil quanto tachar sua bagagem política de inteligente.
Mas onde está a arte? Pelas falações esquerdistas por toda parte, o filme era dito fascista. Como, talvez, se Goya, ao pintar franceses executando espanhóis, estivesse defendendo tal medida social ou politicamente. Como, ao analisar Guernica, dizer que Picasso era um anti-totalitarista por estar representando o sofrimento da guerra causado pelos regimes ditatoriais da época. O dever da arte de ser arte sucumbiu.
Muitas das revolucionices e vanguardices do século XX tentaram embutir na arte o dever de ser engajada, o dever se comprometer com os problemas da sociedade. Nada que não seja de se esperar de um século onde, velado ou desvelado, o marxismo tomou conta de quase todos os campos do pensamento. Erram na pretensão da obrigatoriedade. Arte é poder com um único dever. Enquando poder, que seja ela de tudo: servente ou não-servente, útil ou inútil, engajada ou desengajada. Enquanto dever, o de ser arte.
Não existe mais a dissociação entre autor e obra. Não existe mais a análise artística, todos estão interessados é em saber se o sujeito é esquerdopata ou direitopata, se é fascistocrata, burocista, burguesionário ou pequeno-revolucionês.
Jerusalem
Postado em
September 11, 2008
Categoria: Literatura | Um comentário
Inicio hoje, a convite de meu amigo Diego, mantenedor deste Breviário – que acompanho, como leitor, talvez desde seu início e onde não falto a ler alguns de seus integrantes – este blog. Assim, para não fazer deste mais um dos inúteis posts de apresentação (não que os futuros posts não sejam, também, inúteis, pelo bom e pelo ruim sentido da palavra – e serão), limito-me a dizer a total ausência de método que terei aqui.
***
Inicio, então, publicando uma tradução de uma iluminura do William Blake que fiz há pouco tempo – fiz, como ainda faço, por força que simplesmente impele – porque considero, no balaio de Eliot e de um concretismo às avessas, a inexistência da tradução de poesia, que pode funcionar, no máximo, como versão-introdução ao poema em si.
“Jerusalem”, como é conhecido o poema sem título integrante do prefácio de “Milton: a poem in two books” (onde o personagem é o poeta John Milton que, como Virgílio a Dante na Divina Comédia, descerá dos céus a Blake), foi escrito em 1804 e, a partir de 1916, devido a sua orquestração por Sir Hubert Parry, ganhou popularidade e hoje é tido e considerado como o “unnoficial hymn” do Reino Unido – embora a mim não haja dúvida de que é muito mais belo do que “God save the queen”.
And did those feet in ancient time
Walk upon England’s mountains green?
And was the holy Lamb of God
On England’s pleasant pastures seen?And did the Countenance Divine
Shine forth upon our clouded hills?
And was Jerusalem builded here
Among these dark Satanic Mills?Bring me my Bow of burning gold;
Bring me my Arrows of desire:
Bring me my Spear: O clouds unfold!
Bring me my Chariot of fire!I will not cease from Mental Fight,
Nor shall my sword sleep in my hand,
Till we have built Jerusalem,
In England’s green & pleasant Land.
A mim me parecia uma ascenção estranha, para um país essencialmente cristão, a de um poema inspirado na história apócrifa, do banido Livro das Revelações, da visita do Jesus jovem à Inglaterra com fim de construir uma nova Jerusalém. Até que descobri a dobra interpretativa da igreja britânica, que passou a usar Jerusalém como metáfora do céu. Mas a tradução:
Do original, os octossílabos acentuados na quarta se transformaram no tradicional decassílabo heróico, acentuados na sexta – e a rima foi sacrificada. Força do desacordo lingüístico.
***
E andaram esses pés, em dias antigos,
por sobre os verdes montes da Inglaterra?
Foi o santo Cordeiro de Deus pelos
seus adoráveis campos avistado?
Acaso sobre nossas nevoadas
colinas reluziu o Rosto Divino?
E foi Jerusalém aqui erguida
entre negros Satânicos Moinhos?
Tragam meu Arco de ouro incandescente,
tragam as minhas Flechas de desejo!
Tragam a minha Lança: Ó névoa, se abra!
Tragam a minha Carruagem de fogo!
Não me derrotarão Lutas Mentais,
nem dormirá a Espada em minhas mãos,
até Jerusalém aqui erguermos
na adorável e verde Terra inglesa.
***
Diversos pontos ainda me incomodam nessa tradução, listo alguns deles:
1 – O verso “Tragam a minha Carruagem de fogo” não obedece à acentuação. Para fazê-lo obedecer, seria preciso sacrificar demais o verso original, por isso optei pela tradução literal, que tem dez sílabas porém acentua na sétima.
2 – Batalhei um bocado para que “Mental Fight” fosse traduzido por “Conflitos Mentais”. Novamente, em prol do não-sacrifício do verso, rendi-me a “Lutas” para satisfazer a métrica.
3 – O término do terceiro verso com “pelos” ocasiona uma dependência com o verso seguinte que não ocorre em nenhuma parte do poema.
***
http://www.youtube.com/watch?v=xHTwQUe9P8M – Jerusalem de Hubert Parry na versão de Emerson, Lake & Palmer.
http://www.youtube.com/watch?v=NiitzwuD-qU – Jerusalem de Hubert Parry na versão de Avi.
