Dois poemas para Gerardo Mello Mourão

Postado em January 18, 2010
Categoria: Gerardo Mello Mourão, Poesia | 3 comentários

Espécie de Coda
(sob a leitura do romance “O valete de espadas”)

Os homens de mil anos
cá estamos,
presos na vertical realidade
a que ao bater o tempo o coração

nos impõe. E há em cada
acordar esse estranho
nascer, espécie de Coda,
que já não mais sabemos
desígnios e deveres
dos homens,

nós,
os homens de mil anos, afogados
nesse então outro tempo.

Soneto III do Livro de Cecília
(sob a leitura de “Os peãs”)

E me pedes o mundo de uma forma
que é tão pura agonia: não há palavra
que diga a ti o lírio nem poesia
que mostre a ti a viva cor dos sinos,

das pálidas camélias, dos teus olhos
verdes e desvairados para a vida
e para a morte abertos, da tua boca
aberta como um fôlego da alma.

Se ao sentido dar nome já faz pobre
tudo o que aos olhos vige, quando o chão
desaba de rangido em pedra, vão,

o chão dessa lacuna a preencher
nas coisas ao redor, até o não ver
é ser vago nos olhos que hoje não.